.:: Relendo os clássicos brasileiros: os enfrentamentos no tempo e permanências

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Um feliz Natal e um 2004 repleto de realizações e partilha. Com carinho, Mara
20.4.06

[ Convite para estar junto e divulgar ]
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Os Núcleos:
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Trabalho e Movimentos Sociais-TRAMSE
Núcleo de Estudos de Política e Gestão da Educação-NEPGE, ambos do PPGEDU/FACED/UFRGS e o
Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Trabalho do PPS/IFCH/UFRGS
convidam para a palestra e o lançamento do livro:
Desemprego: Trajetórias, Biografias, Mobilização
Palestrante Drª Nadya Araújo Guimarães
Professora livre-docente do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de São Paulo-USP
Dia 02 de maio de 2006, as 15h
na sala 101 da FACED/UFRGS
Av. Paulo Gama, 110, Campus Central

FOLDER para divulgação encontra-se disponível em rede.





15.7.05

[ Todo mundo vai virar suco ]
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Tese examina como a teoria econômica transformou o conhecimento em capital e a pessoa, em empresa

"O capital intelectual é a matéria-prima da qual são feitos os resultados financeiros" (Thomas Stewart)

Ganhar dinheiro na bolsa, converter os lucros no carro do ano, realizar viagens internacionais também todo ano -uma passagem obrigatória por Nova York ou conhecer lugares exóticos do Oriente-, comer ao menos uma vez nos restaurantes dos grandes chefs franceses da nouvelle cuisine, colecionar quadros de artistas emergentes, quiçá ouvir óperas no festival anual de Salzburg. Esta era a parte do ideal da vida dos "colarinhos brancos" que ganhavam dinheiro na década de 70 -os yuppies. Uma escada-rolante ascendente, que levava ao paraíso do consumo, seria a melhor metáfora para descrever sua percepção da vida naqueles anos já distantes do século passado.

Trinta anos depois, o personagem que está na posição daquele yuppie -o executivo de uma empresa transnacional- pinta em novas cores o seu mundo: "A dinâmica hoje do mercado é uma escada rolante que desce. É para a empresa dessa forma, em relação ao mercado, e para a pessoa com relação à empresa. É tudo uma cadeia". Agora, já não é empregado, mas "associado" ou "colaborador" da transnacional. "Terceirizado", como dizemos caboclamente. Tem lá o contrato entre a sua "pessoa jurídica" e a transnacional, mas o vínculo é tênue.
- por Carlos Alberto Dória

[leia mais]





17.5.05

[ Convite: Políticas Públicas em Educação Profissional ]
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No próximo dia 9 de junho, quinta feira, das 8 horas às 10 horas, na sala 603, estará palestrando com os interessados na temática acima, como promoção de nosso Núcleo de estudos e experiências em Trabalho, Movimentos Sociais, Saúde e Educação - TRAMSE, a Professora
IVONE MARIA ELIAS MOREYRA, Mestre em Educação Escolar,
Diretora de Educação Profissional e Tecnológica da Secretaria de Educação Média e tecnológica do
Ministério da Educação entre 2003 e 2004.
A atividade será promovida plo Núcleo, com o apoio da Linha de Pesquisa, sob a coordenação do
Prof. Dr. Augusto Nibaldo Silva Triviños, e a organização da doutoranda Magda Colao.
Divulguem aos interessados.
Abraços,
Carmen





21.3.05

[ Trabalho e educação escolar em Três de Maio ]
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Compartilhando minha viagem para o referido município, quando estive a falar e produzir o registro das reflexoões sobre Trabalho e Educação Escolar, digo que me impressionou a seca ao longo do caminho. O verde das folhas recomeça a brotar mas os frutos e as flores estão secos.
Por vezes, nosso fazer como professoras e professores sofre o mesmo processo. Vemos nossos alunos - professores reproduzirem na sala de aula o mesmo fazer que acabam de criticar nos seus alunos. Como recriar nossos saberes de modo a não apenas reproduzir sociedades, relações e comportamentos mas transformar nossa sala de aula, nossas relações e contribuir para que nossa sociedade possa ser mais justa? Mais um sonho!





5.11.04
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ELABORAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DO CURRÍCULO:
alguns enfoques e problemas atuais
Nereide Saviani
No conceito de currículo estão presentes, entre outras, as idéias de: conjunto de matérias/disciplinas escolares e respectivos programas; conjunto de atividades/experiências desenvolvidas na escola; conjunto de conhecimentos selecionados da cultura global da sociedade e organizados para fins de ensino/aprendizagem, constituindo-se num tipo peculiar de saber - o saber escolar.
Em geral, os elementos acima são abordados de forma segmentada, com o privilegiamento de um(ns) em detrimento de outros. Mas há esforços no sentido de concebê-los em unidade, na dialética do processo pedagógico - que envolve a relação currículo/didática como elementos do saber escolar. De qualquer modo, a visão de unidade não significa diluição das especificidades. Do ponto de vista do currículo, a especificidade estaria na questão dos conteúdos (que guardam relação com os diversos domínios da cultura). Do ponto de vista da didática, na definição dos métodos e processos de ensino.
O tratamento dicotomizado dos diversos elementos que compõem o saber escolar tem dificultado a análise dos problemas educacionais, a reflexão sobre suas causas e o vislumbre de indicadores para sua superação. Da visão fragmentária, que separa meios e fins, conteúdo e método, sujeito e objeto, teoria e prática, quantidade e qualidade - e tantos ouros componentes do processo pedagógico - decorrem interpretações superficiais, não raro falseadas, das questões educacionais, remetendo para "soluções" parcializadas, ou, quando muito, ecléticas, em propostas pedagógicas que justapõem, aleatoriamente, idéias/propostas oriundas de diversas matrizes teóricas, às vezes antagônicas.
Essa visão fragmentária é também a que separa o saber escolar de outros saberes que compõem a cultura global da sociedade. Da mera constatação, à crítica do que se detecta, passando-se pela defesa desta ou daquela situação e pela indicação do que o saber escolar deve/deveria ser, tal separação expressa-se sob diversas formas, tais como: a idéia de que a escola propõe-se a trabalhar saberes elaborados fora dela, transpondo-os tais e quais para as situações de ensino/aprendizagem; a de que a escola elabora um saber todo peculiar, cuja maior ou menor ligação com outros saberes depende dos objetivos, necessidades, interesses a ela intrínsecos e/ou extrínsecos; a de que a escola produz seu próprio saber, de forma autônoma, segundo o desenrolar das relações que se estabelecem no seu interior; a de que o processo pedagógico restringe-se a uma transposição didática dos saberes da sociedade em saber escolar.
A literatura acerca do tema do currículo envolve estudos com os mais diferentes enfoques, por exemplo: os que operam a crítica de como a escola organiza o currículo, indicando ou não como, na perspectiva defendida, deveria fazê-lo; os que buscam desvendar os processos e vicissitudes da elaboração e aplicação do currículo, através da análise de sua
história; os que se dedicam à organização de inventário-síntese de diversas abordagens e perspectivas
Nessa literatura é possível, também, constatar modos diferenciados de encarar o problema da constituição e difusão do saber escolar e de sua organização em currículos e programas. Há estudos que privilegiam os aspectos sociológicos, centram-se na relação escola/sociedade e analisam o currículo como reflexo dos (ou voltados para os) interesses e necessidades do indivíduo e/ou da sociedade. Outros, enfatizam os aspectos psicológicos, os relativos à aprendizagem, e analisam o currículo segundo o atendimento às características, necessidades e interesses do aluno, voltando-se para o exame da estrutura do sujeito cognoscente. Há, ainda, os que priorizam aspectos lógicos, os relativos ao conteúdo, e analisam o currículo segundo o atendimento às características do objeto cognoscível (a estrutura das matérias de ensino - áreas do conhecimento/disciplinas escolares). Num quarto tipo, encontram-se estudos que procuram contemplar os três anteriores, englobando aspectos sociológicos, psicológicos e lógicos da elaboração e aplicação do currículo - seja numa visão eclética, seja numa tentativa de síntese dialética.
A análise da problemática curricular vem contando com a contribuição de um campo recente de estudos e pesquisas: o da história do currículo e das disciplinas escolares - que se dedica não somente ao exame da evolução do "pensamento curricular" ou da história das idéias sobre o currículo e as matérias escolares, mas também ao estudo dos processos pelos quais vêm se dando a elaboração do currículo, os esforços de sua consolidação e os intentos de elaboração de reformas curriculares, bem como dos processos de constituição, "assentamento", mudança e até desaparecimento/ressurgimento das disciplinas escolares.
A literatura que analisa a história do currículo situa fatores que contribuem para conformar o perfil e definir o caráter do ensino e do currículo que a ele corresponda. Dependendo do tipo de ensino enfatizado (propedêutico ou de caráter "final"), da formação que se quer privilegiar (humanística, científica ou técnica), das necessidades a serem atendidas (do indivíduo e sua família, do Estado ou demandas do mercado) - diferenciam-se o caráter e a modalidade do currículo, distinguindo-se, também: as matérias, seu valor relativo e respectivos programas; a destinação de recursos financeiros e materiais às atividades especificamente curriculares; as formas e critérios de avaliação; as normas disciplinares; os modos de acompanhamento e controle das unidades escolares; o lugar e o papel dos saberes elementares (a leitura, a escrita, o cálculo), bem como o caráter e a freqüência das campanhas de alfabetização.
As obras que tratam da história das matérias escolares apontam fatores que determinam a evolução de uma disciplina ou área de estudo, sua inclusão/exclusão e valor relativo em currículos determinados. São fatores ligados tanto às finalidades educacionais da sociedade (exigências do regime sócio-político, da religião, da família, do mercado) quanto às específicas da escola, incluindo: demandas por tipos diferentes de ensino; características e transformações sociais e culturais dos públicos escolares; renovação/estabilidade do corpo docente; sistemática de avaliação e seleção (provas, exames, vestibulares, concursos); condições materiais (construções escolares, mobiliário, equipamentos) e recursos, com destaque para o livro didático. Entram em jogo, também, interesses de grupos diversos da sociedade: ação e prestígio de lideranças intelectuais; exigências e pleitos de professores e especialistas da educação; influência de centros acadêmicos de produção teórica/técnica e de centros de formação de profissionais das várias áreas; interferências de entidades culturais e associações de profissionais; além da política editorial de cada área.
Os estudos que abordam as questões curriculares na perspectiva histórica têm possibilitado: a avaliação dos impactos das propostas curriculares na prática escolar; o exame do discurso pedagógico, das regulamentações, das transformações no próprio campo, em relação com as mudanças no cenário educacional e no contexto social mais amplo; a captação de contradições, conflitos, relações de poder e prestígio envolvidos na tomada de decisões curriculares e no processo de constituição das disciplinas, sua instauração num currículo dado e o lugar de cada uma na hierarquia das matérias que o compõem; a desmistificação de idéias apresentadas (muitas vezes prescritas, pontificadas) em boa parte das produções teóricas e/ou políticas que discutem problemas educacionais.
Tais estudos revelam, também, que a elaboração e a implementação do curriculo (envolvendo a disposição das matérias e respectivos programas, bem como a seleção de métodos, técnicas, procedimentos, recursos necessários a seu desenvolvimento) resultam de processos conflituosos e de decisões negociadas. Com essa revelação, desmistifica-se a visão do currículo como mero resultado de decisões científico-racionais, baseadas no consenso (a idéia da possibilidade de elaboração de currículos ideais, perfeitamente amoldados numa dada teoria e aplicáveis tal qual concebidos), contribuindo para colocar-se sob suspeita o presumível caráter "democrático" das "consultas" feitas ao professorado acerca de propostas curriculares elaboradas por técnicos "especializados". Ao mesmo tempo, apontam os limites das concepções que se restringem à idéia do conflito (na visão da irremediável determinação do processo pedagógico por interesses dominantes e do limitado papel do professor como denunciador dos mecanismos de exploração), contribuindo para admitir-se a perspectiva de ocupação de espaços democráticos e forçar-se a negociação no sentido de atender aos interesses populares.
Outra descoberta dos estudos históricos é a de que há uma tendência, na elaboração do currículo e valorização de seus elementos - bem como na disposição/hierarquização das disciplinas escolares - a se obedecerem normas, critérios, modelos estabelecidos mundialmente. Pesquisa realizada por BENAVOT e outros (1991, pp 317-344) sobre a organização curricular de sistemas de ensino administrados pelo Estado em países ligados à UNESCO - período 1920/1986 -, revela a existência de currículos padronizados, nos quais predominam: um mesmo núcleo de matérias e respectivo valor relativo; o mesmo tempo destinado às matérias nucleares; o mesmo tipo de alteração curricular num dado período (por exemplo, introdução de línguas estrangeiras, diminuição do tempo para geografia e história e aumento para estudos sociais); obrigatoriedade das mesmas matérias não nucleares (educação religiosa e ética, atividades práticas ou profissionais) - dentre outras "coincidências". Na verdade, segundo os autores, "o currículo de massas é definido e prescrito diretamente através da influência de determinadas organizações internacionais (por exemplo, o Banco Mundial e as Nações Unidas) mediante modelos apontados por Estados-nação dominantes e por profissionais da educação que operam em escala mundial" (p. 339).
Obviamente, não se trata de tendência ou "vocação" à imitação que teria impelido os países pobres a se espelharem nos modernos grandes ricos, mas sim, o efeito do imperialismo: os países econômica e politicamente dominantes subjugam os demais e impõem, na divisão internacional do trabalho, padrões de cultura e de sua transmissão em massa. E este quadro tende a agravar-se nos dias de hoje, sob a égide do neoliberalismo, com a propalada globalização da economia a exigir o fim das fronteiras nacionais, no contexto "unipolar" da "nova ordem" mundial. A educação é agora colocada no centro das atenções, destinando-se a formar cidadãos capacitados a produzir e consumir "modernamente", no contexto da terceira revolução científico-tecnológica.
Tanto ou mais que antes, os organismos internacionais como PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), UNESCO/UNICEF, capitaneados pelo Banco Mundial, não tardam a apresentar as pautas neoliberais para o ajuste das políticas educacionais dos países periféricos. Terá sido outro o objetivo da "Conferência Mundial de Educação para Todos", realizada em Jomtien, Tailândia, em março de 1990, da qual derivaram os PLANOS DECENAIS dos vários países - entre eles, o do Brasil?
Resta saber em que consistiria, nesse quadro, a "satisfação das necessidades básicas da aprendizagem" - o tema da Conferência. A quais necessidades se quer atender? Às da própria aprendizagem (isto é, ao que é preciso garantir para que ela ocorra)? Às de indivíduos e/ou grupos sociais com interesses de emancipação e participação? Ou às do mercado (um "abstrato" mercado mundial, globalizante e globalizado)?
O documento que serviu de apoio à Conferência define "uma estratégia mundial para a ação concertada durante o decênio de 1990", no sentido de garantir educação para todos, numa "visão ampliada de educação básica", ou seja, a educação que "satisfaz certas necessidades instrínsecas do ser humano, cria a capacidade de satisfazer outras necessidades humanas básicas, aumenta a produtividade e ajuda a desenvolver a capacidade de fazer frente a aspectos cruciais dos desafios mundiais ..." do século XXI..(WCEFA,1990, p.79). Desafios estes que se caracterizam pela ameaça de estagnação e decadência da economia, disparidades econômicas entre os países e dentro de cada país, marginalização de populações, degradação do meio ambiente e rápido aumento da população - que limitam o desenvolvimento humano e para cujo enfrentamento requer-se a ação combinada de todos os povos no sentido de "criar um clima internacional mais cooperativo". E a educação básica é chamada a vincular o desenvolvimento de recursos humanos "com o desenvolvimento e a conservação dos indivíduos para contribuir ao crescimento econômico e ao progresso social". (Idem, p. 1 e outros trechos).
Para a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), trata-se de relacionar adequadamente a educação com as mudanças tecnológicas, voltando-se para a produção de (e o acesso a) bens e serviços modernos, de modo a permitir que os países latino-americanos incrementem a competitividade, a eqüidade e a sustentabilidade ambiental. Suas recomendações, quanto à "transformação produtiva com eqüidade", tendo por eixo a relação Educação e Conhecimento, voltam-se para o atingimento dos seguintes objetivos: cidadania (responsabilidade social, transmissão de valores, formação democrática); competitividade (aquisição de habilidades e destrezas para o desempenho com desenvoltura no mundo moderno); eqüidade (igualdade de oportunidades, compensação das diferenças); desempenho (avaliação dos rendimentos, incentivo à inovação); integração (capacidade institucional dos países); descentralização (maior autonomia à ação educativa, maior responsabilidade dos agentes em relação aos resultados). (Cf. CEPAL/UNESCO, 1992, vários trechos). A questão do acesso e produção do conhecimento coloca-se como central para a educação, o que exige "um esforço sistemático para aprofundar as interrelações entre o sistema educacional, a capacitação, a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico". (Idem, p. 15).
Tudo isto, evidentemente, traz implicações para o currículo. Questões relativas a conhecimento, informação, domínio técnico-científico, passam a ocupar lugar de destaque, apontando para o privilegiamento de áreas como: linguagem - artes lingüísticas, discurso, expressão oral, leitura e escrita; matemática - solução de problemas, desenvolvimento da lógica; ciências - especialmente as "exatas" e as da natureza; informática - as novas tecnologias. A preocupação com a formação de recursos humanos flexíveis - força de trabalho com nível mais alto de conhecimento e capacidade de se formar e atualizar-se continuadamente - recobra a ênfase no aprender a aprender / aprender a estudar, como necessidade dos alunos. Ensino à distância, técnicas de estudo individualizado, aprimoramento dos procedimentos e técnicas de avaliação apresentam-se como imprescindíveis tanto para os estudantes quanto para os professores, dos quais se exige o aprender a ensinar.
Obececendo à orquestração do imperialismo, os países periféricos vão reformulando seus planos, adaptando-os às "recomendações" do Banco Mundial e de outros organismos internacionais. No caso do Brasil, o Plano Decenal de Educação para Todos reflete bem essa tendência. Mais ainda que o Plano, destaca-se o pronunciamento do Presidente Fernando Henrique Cardoso, em fevereiro de 1995, quando anunciou as cinco prioridades do Projeto "Acorda Brasil, é hora da escola": 1) dinheiro do ensino básico diretamente para as escolas; 2) valorização do professor, preparando-o para ensinar melhor, via Sistema Nacional de Educação à Distância / televisão educativa - um aparelho de TV em cada escola oficial; 3) melhoria da qualidade do material didático - livros de acordo com as necessidades dos alunos; 4) definição do conteúdo do ensino - matérias obrigatórias em todos os Estados; 5) avaliação das escolas - aplicação de testes em todos os alunos e premiação das escolas com melhores resultados. Especificamente sobre o currículo, FHC afirmou: "...o Ministro da Educação vai reunir os secretários da Educação de todos os Estados, para estabelecer, junto com eles, esse currículo básico". (FSP, 08/02/95, p. 1-8).
O que estará sendo estabelecido? Como serão concebidas as necessidades básicas de aprendizagem dos estudantes brasileiros, em nível nacional? Precisamos estar alertas, pois, muito provavelmente, as medidas virão acompanhadas de um discurso (aparentemente) democrático, incorporando até idéias e propostas já defendidas, em outros contextos, pelos movimentos docente, estudantil e popular - o que, aliás, tem sido uma das marcas do discurso neoliberal. E se, imposto ou proposto, "baixado" ou estabelecido mediante consultas, o currículo (bem como sua implementação) supõe, como dissemos, negociações - que, ao fim e ao cabo, se dão na sala de aula -, ao professor apresenta-se o desafio de buscar conhecer os fundamentos das diferentes propostas sobre as quais precisa tomar decisões.
Por exemplo, como se posicionar face a propostas como "pedagogia construtivista" ou "qualidade total em educação" - para citarmos as que mais recentemente vêm se apresentando às redes de ensino - se o professor não tem acesso senão a leituras de segunda ou terceira mão, isto é, a argumentos (de defesa ou crítica), elaborados segundo a leitura de adeptos ou desafetos? E face a propostas que assumem o ar de ecletismo, colocando lado a lado "pontos positivos, aproveitáveis" de diferentes concepções? Ou àquelas que retomam, com ares democráticos, aspectos já antes criticados (às vezes até pelos mesmos atuais proponentes) como elitistas, autoritários? Referimo-nos, neste caso, ao modo como, hoje, alguns dos que já foram adeptos da "pedagogia crítico-social dos conteúdos" apresentam, com outra roupagem, teses/propostas que se amoldariam muito bem ao tecnicismo da década de 70, tão duramente por eles criticado. Estarão fazendo alguma espécie de autocrítica, ou quererão fazer crer que perseguem os mesmos objetivos de democratização do saber elaborado, agora com meios "mais modernos"?...
Neste sentido, cabe reiterar o que propusemos em artigo para a Revista do SINPEEM (SAVIANI, N.,1995, p. 31), acerca da necessidade de os professores exigirem oportunidades de acesso aos fundamentos teóricos de seu próprio trabalho, para diminuição da desigualdade de condições nas negociações: desde conhecimentos relativos às matérias que lecionam (conforme as caracerísticas das ciências na atualidade), às raízes históricas e bases teóricas das concepções de educação escolar e problemas de elaboração e implementação de currículos e programas, em relação com questões didáticas, passando necessariamente pelo aprofundamento do estudo sobre concepção de conhecimento e seu tratamento no processo pedagógico. E entendemos que esta exigência pode (e deve) constar das pautas de reivindicações dos Sindicatos. O investimento na formação do professor não se limita à realização de cursos, por melhores que possam ser. Passa, também, pela melhoria das condições de trabalho, nas quais se incluem oportunidades de estudo individual, debates, e, principalmente, trabalho em equipe - o que não se consegue sem salário e jornada decentes, de modo a não ser necessária a desgastante maratona de uma escola a outra, que caracteriza o dia-a-dia da maioria dos professores.
Por fim, é preciso considerar que a luta pela melhoria da qualidade do ensino pressupõe a luta pela sobrevivência do ensino público e gratuito - hoje ameaçado pela onda privatista neoliberal. Conseqüentemente, a luta dos profissionais da educação há de ser, essencialmente, a da resistência à aplicação do projeto neoliberal em nosso país - pelo que ele significa de ataque à soberania nacional, às liberdades democráticas e aos direitos sociais dos trabalhadores.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENAVOT, Aaron e outros, "El conocimiento para las massas. Modelos mundiales y curricula nacionales" in Revista de Educación, 295, Historia del Curriculum - I , Madrid, 1991.
CARDOSO, Fernando Henrique, Pronunciamento in Folha de São Paulo, 08/02/95, p. 1.8.
CEPAL/UNESCO, Educacion y Conocimiento: eje de la tranformacion productiva con equidad, Santiago de Chile, Nações Unidas, 1992.
SAVIANI, Nereide, Saber Escolar, Currículo e Didática: problemas da unidade conteúdo/método no processo pedagógico, Campinas, Autores Associados, 1994.
SAVIANI, Nereide, "A conversão do conhecimento científico em Saber Escolar: uma luta inglória?" in Revista do SINPEEM, No. 2, São Paulo, fevereiro/1995.
VÁRIOS, Necesidades básicas de aprendizaje. Estrategias de acción, Santiago, Chile, UNESCO/IDRC, 1993.

ENTREVISTA à UBES
Nereide Saviani
UBES ? Que balanço a sra. faz dos oito anos do governo FHC no setor educacional?

N.S. O governo FHC seguiu, em Educação, a política neoliberal, que norteou suas ações em todos os setores, pautada na visão de estado mínimo e na lógica do mercado. Desobrigando-se das responsabilidades em relação aos direitos sociais, marcou-se pela transferência de responsabilidades: do poder público para a família, a comunidade ? apelo a serviços voluntários, parcerias, terceirização, privatização; e do poder central para os poderes locais. Nessa mesma linha, invocando a necessidade de ajustar a relação custo-benefício, centrou-se no corte de despesas, na redução do investimento. Seu Ministro, aliás, repetiu, nos oito anos à frente da pasta de Educação, o seguinte jargão: a quantidade está resolvida, o problema é a qualidade; os recursos são suficientes, o problema é que são mal gastos e mal distribuídos ... Tratada como mercadoria, à qual se tem acesso na medida do poder aquisitivo, a educação se voltaria para atender ao cliente, não necessariamente o aluno e seus familiares, mas o empresariado, interessado num tipo determinado de mão de obra, para um mercado cada vez mais excludente, que se responsabilizaria por premiar os bons, ou "mais aptos", e castigar os maus, ou "pouco talentosos".
Seguindo recomendações dos organismos internacionais, capitaneados pelo Banco Mundial, suas medidas incluíram reformas administrativas e pedagógicas, como a municipalização do ensino fundamental, a modificação da duração dos ciclos escolares, novas propostas curriculares, mecanismos de avaliação do rendimento escolar e docente. Manteve-se fiel aos cinco pontos anunciados já no início do primeiro mandato, quando, em cadeia de rádio e televisão, no dia sete de fevereiro de 1995, o Presidente inaugurou o Projeto Acorda, Brasil, está na hora da escola! Eis as cinco principais balizas do seu governo para a educação, então proclamadas: 1) dinheiro do ensino básico diretamente do Governo Federal para as escolas - para evitar desperdícios e sobrar para salários; 2) valorização do professor - prepará-lo para ensinar melhor, através da TV educativa, num sistema de ensino à distância (garantir um aparelho de TV em cada escola oficial); 3) investimento em material didático - melhoria da qualidade, regularização e pontualidade na entrega às escolas; 4) definição do conteúdo do ensino - matérias obrigatórias em todo o país, currículo básico nacional; 5) sistema unificado de avaliação - verificação dos pontos fracos, premiação das escolas com melhores resultados. (Cf. FSP, 08/02/95, p. 1.8).
Daí em diante, foram sendo tomadas medidas diversas ? não se hesitando em apelar para Emendas Constitucionais ? tais como o Fundef, o Enem, o Provão, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Foi no seu governo que se concluiu a elaboração da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), em meio a manobras e injunções que descaracterizaram a proposta que vinha sendo discutida no Congresso Nacional, com a participação do Fórum Nacional em Defesa da Educação Pública. E ainda os vetos ao Plano Nacional de Educação, cuja versão governamental se contrapôs à proposta da sociedade brasileira, aprovada no Coned (Congresso Nacional de Educação).

UBES ? Como foi a participação dos docentes no processo de elaboração da Constituição?
N.S. Foi bastante significativa a participação dos docentes na apresentação de propostas à Assembléia Nacional Constituinte, convocada a partir da eleição de 1986. Por meio de organizações sindicais, culturais e científicas, vinculando-se a entidades estudantis e de outros setores da sociedade civil, bem como a partidos e outras agremiações, realizaram-se grandes debates, em eventos estaduais e nacionais, em torno de itens relacionados à democratização da educação em nosso país.
Selada a Nova Carta, em 1988, iniciou-se imeditamente a discussão sobre sua regulamentação em matéria de educação, pela LDB, que já tinha merecido um artigo de Dermeval Saviani, elaborado sob a forma de anteprojeto, em 1987. Debatido em diversos eventos educacionais, o texto foi apresentado à Câmara Federal como projeto de lei, em 1988, por iniciativa do então Deputado Octávio Elísio. Deu-se prosseguimento ao processo de participação, já com a constituição do Fórum Nacional em Defesa da Educação Pública, integrado por fóruns estaduais da mesma natureza. Congressos de entidades passaram a ter como pauta obrigatória o debate das temáticas da LDB. Propostas as mais diversas passaram a ser encaminhadas aos parlamentares. Caravanas e mais caravanas se dirigiram a Brasília, com a finalidade de percorrer gabinetes e acompanhar sessões de discussão e votação da LDB, enquanto atos públicos eram organizados em todos os estados da federação.
UBES ? Que avanços teríamos se adotássemos a proposta de LDB da Câmara?

N.S. O projeto original apresentava importantes pontos, que foram se perdendo ao longo dos diferentes substitutivos. O principal deles, a meu ver, é a idéia de sistema nacional de educação, que subentende a perspectiva de construção de uma escola comum, unitária, no espírito da educação politécnica. Algumas propostas concretas associam-se e esses princípios: redução da jornada de trabalho (viabilização de freqüência à escola por jovens e adultos, com a possibilidade de estudar no horário de trabalho); salário-creche; delimitação do que pode e do que não pode ser considerado gasto com ensino; verbas públicas exclusivamente para o ensino público; Conselho Nacional de Educação associado ao Fórum Nacional de Educação; regulamentação da carreira do professor, prevendo-se jornada única e regime jurídico único; caráter de universidade ao Ensino Superior (inseparável da pesquisa). O Substitutivo Jorge Hage manteve a idéia de sistema, mas dificultada, ao prever a organização de sistemas municipais; abrindo brechas ao corporativismo na composição do Conselho Nacional de Educação, com a representação por entidade; relegando caráter consultivo ao Fórum Nacional de Educação; não prevendo formas nem prazos para exigência de organização do ensino superior em forma de universidade, permitindo a manutenção de faculdades isoladas; admitindo a permanência da categoria horista na carreira docente; permitindo a destinação de recursos a escolas particulares. Debatido na Câmara, o texto foi encaminhado ao Senado, já com algumas modificações, a principal delas no Título V ("Do Sistema Nacional de Educação"), que passou para "Da Organização da Educação Nacional". No Senado, foi posto em discussão um novo Substitutivo (Cid Sabóia), que manteve a estrutura do texto vindo da outra casa, incorporando aspectos aceitáveis de um outro projeto, que tinha sido apresentado pelo Senador Darcy Ribeiro. Foram realizadas novas audiências públicas, com a participação de entidades educacionais, além de consultas a representantes do governo e dos partidos. Embora já bastante distante da perspectiva do original, o texto resultante desse processo apresentava certa organicidade, em relação à legislação ainda vigente, disposta na esteira das reformas implantadas no período da ditadura militar e de suas alterações tópicas, realizadas durante a chamada transição democrática. E, também, em relação ao projeto que acabou se impondo, na forma do Substitutivo Darcy Ribeiro. Os principais avanços seriam obtidos, sem dúvida, com a aprovação do projeto original ? e as propostas concretas acima mencionadas falam por si.

UBES ? Como a sra. avalia a LDB aprovada?
N.S. Compartilho da posição de Dermeval Saviani, que identifica nela a predominância de uma concepção neoliberal. Em seu livro A nova lei da educação: trajetória, limites e perspectivas (Editora Autores Associados, 1997), o autor analisa as leis anteriores e os projetos que tramitaram no Congresso Nacional até a aprovação da Lei 9394/96. Vale a pena percorrer sua argumentação ao caracterizar: a LDB 4024/61 como de concepção liberal; as reformas do ensino superior (Lei 5540/68) e de 1º e 2º Graus (Lei 5692/71) como de concepção tecnicista. E, para a LDB atual: o projeto original é associado a uma perspectiva socialista; o Substitutivo Jorge Hage, à concepção social-democrata, progressista; o Substitutivo Angela Amin (o texto que, afinal, deu origem ao Substitutivo Cid Sabóia), à concepção conservadora ? por ironia, menos pior que aquele que veio a ser aprovado.
Por que neoliberal? Pela sua visão "minimalista", na lógica do Estado mínimo, com transferência de responsabilidades: inverte o disposto na Constituição ? a educação como dever do Estado e da família (aparece como dever da família e do Estado); omite a idéia de ensino obrigatório e gratuito; concede liberdade de ensino à iniciativa privada, sem normas para coibir abusos. Pelo caráter regulador atribuído ao Estado, no âmbito da União, centralizando controle orçamentário e avaliação, e descentralizando a execução: responsabilidade aos municípios pelo Ensino Fundamental e, aos Estados, pelo Ensino Médio; não definição de responsáveis pelo Ensino Superior nem pela Educação Infantil ? o que pode deixá-los à mercê da iniciativa privada.
Na questão da valorização dos profissionais do ensino, omite o regime jurídico único. Desconsidera a proposta de Fórum Nacional de Educação e apresenta um Conselho Nacional de Educação desfigurado, sem definição de composição e nos termos da Medida Provisória, já em funcionamento. É totalmente vago em relação ao Ensino Médio ? nada define quanto à função profissionalizante, omite o ensino técnico. No ensino superior, prevalece o hiato ensino versus pesquisa, estende em demasia o prazo para a titulação de professores (1/3 em 8 anos), não prevê a paridade na gestão das instituições.
É preciso considerar, no entanto, que há também pontos positivos no texto aprovado. No que concerne ao conceito de educação, mantém uma concepção ampla, com os preceitos: igualdade de condições, pluralismo de idéias, respeito às diferenças, bem como a relação entre educação, trabalho e práticas sociais. Estabelece o ensino superior como regra para a formação de professores de todos os níveis (apesar de admitir o Instituto Superior de Educação, a Escola Normal Superior, o Curso Normal Superior, paralelamente às universidades). Quanto aos recursos financeiros, estipula a vinculação de percentuais a serem aplicados à educação, define o que pode e o que não pode ser considerado gasto com ensino e prazos para repasse dos valores. Inclui um Capítulo para as "minorias" (educação especial, educação indígena). E, nas disposições gerais, estabelece: admissão dos profissionais da educação por concurso público; a década da educação; diretrizes quanto à permanência na escola (aumento do número de dias letivos e, progressivamente, a instituição da escola em tempo integral).
Daí porque, sancionada a lei, colocou-se a necessidade de manter a luta, em dois sentidos: quanto aos pontos positivos, para regulamentá-los e exigir seu efetivo cumprimento; quanto aos negativos, para forjar a resistência ativa, visando-se à sua alteração e à busca de alternativas, por exemplo, com a elaboração do PNE ? Plano Nacional de Educação. Para tanto, impunha-se a união de forças, com ampliação das pautas, para além das questões educacionais (como a redução da jornada de trabalho), o que exigiria a articulação das organizações educacionais com as organizações operárias e com partidos e outras entidades da sociedade civil, compreendendo a atuação junto aos parlamentares.

UBES ? Que razões levou o prof. Darcy Ribeiro a apresentar o substitutivo?

N.S. Não ficou suficientemente claro isto, à época. E não me atrevo a especular sobre o assunto, até porque ele não mais pode confirmar/retrucar ou se defender de eventuais críticas. Devo ressalvar que sempre considerei Darcy Ribeiro um grande intelectual, que deu enormes contribuições ao estudo da sociedade brasileira e de nosso sistema educacional, inclusive com ações concretas de peso, quando à frente de órgãos públicos. Mesmo por ocasião dos debates da LDB, nunca me somei aos que o desmereciam face às posições que defendia. Não deixei de lamentar, como a maioria, o fato de ele ter se mantido alinhado a FHC. Até aí, um direito que lhe assistia. Mas, impossível aceitar o expediente, nada democrático, de fazer correr seu projeto por fora do processo instaurado para a discussão da LDB. Com ou sem esta intenção, o que ele fez foi esvaziar o texto da Câmara, cumprindo o papel de afastar as pressões das forças organizadas, deixando caminho livre para medidas tópicas (fundão, provão, CNE etc), que já vinham sendo matérias de Emendas Constitucionais e Medidas Provisórias.

UBES ? Que avaliação a sra. tem dos parâmetros curriculares introduzidos na gestão FHC?

N.S. Tratei dos PCN em dois artigos. Um deles, Parâmetros Curriculares Nacionais: o que dispõem para o Ensino Fundamental? ? corresponde à exposição na mesa redonda "Política de Ensino Fundamental ? Parâmetros Curriculares Nacionais". Tema Educação Básica, no I CONED - Belo Horizonte/MG, 02/08/96. Disponível em Disquete: Anais do I Coned, Programa "B". Publicado em Caderno Pedagógico Nº 02, Curitiba: APP/Sindicato, 1999, pp. 21-29. O outro, Bases legais e conceituais da reforma curricular do Ensino Médio no Estado de São Paulo, foi publicado na Revista de Educação da Apeoesp. Nº 11. São Paulo, agosto de 2000 - pp. 14-25. Vou salientar alguns pontos ali abordados.
As justificativas do MEC para a utilização da expressão parâmetros curriculares ao invés de currículo básico incluem as preocupações de: garantir a autonomia das diferentes instituições na definição de propostas próprias; não imprimir caráter obrigatório à programação apresentada; abrir-se a revisões periódicas e sistemáticas. Além disso, supõem a idéia de referencial para o estabelecimento de uma política de ensino para o país e a reestruturação de propostas educacionais gerais, preservando-se as especificidades locais. Na aparência, tudo muito democrático.
No entanto, a definição dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), tanto nos objetivos declarados, quanto no processo de elaboração e no produto apresentado, reflete o autoritarismo da chamada visão "científico-racional". Quanto aos objetivos: ao definir as capacidades a serem formadas nos alunos, os PCN pretendem constituir-se "em uma referência para os investimentos do Estado" na educação, visando subsidiar e orientar: a elaboração ou revisão curricular; a formação inicial e continuada dos professores; a produção de livros e outros materiais didáticos; as discussões pedagógicas internas às escolas; a elaboração de projetos educativos; a avaliação do sistema nacional de educação. Como acreditar em não obrigatoriedade, com todas essas finalidades declaradas? Especialmente no que se refere à avaliação, sabe-se o quanto ela pode vir a dirigir e moldar, ao invés de simplesmente "orientar e subsidiar". Não nos esqueçamos das avaliações "externas", realizadas em todos os níveis...
No processo de elaboração, priorizou-se a ação de técnicos e especialistas ("competentes"), relegando-se ao professorado um papel burocrático, no fim da linha. Depois de tudo definido, ao nível do MEC e das Secretarias de Educação, é que as equipes pedagógicas das escolas entram em ação, para adequar o estabelecido à sua realidade. Na verdade, o que sobra aos professores/as é o planejamento e execução de projetos específicos. A "consulta" se deu a posteriori: acadêmicos e professores ? sem explicitação dos critérios de seleção ? foram acionados individualmente, não a partir de instituições ou entidades, e solicitados a apreciar os documentos, sendo submetidos ao constrangimento de decidir, pessoalmente, sobre emitir ou não o parecer e, em qualquer dos casos, tendo que buscar, por si próprios, os meios de tornar pública sua decisão e de divulgar suas opiniões acerca dos PCN, enviadas ou não ao MEC. Aos que optaram por enviar seu parecer, não se ofereceu qualquer possibilidade de controle sobre o uso que dele seria feito. Os seminários regionais, com participação de representantes de Secretarias de Educação e de instituições públicas e privadas, não apresentaram espaço à participação do professorado.
Sobre o produto apresentado, considero que há problemas relativos às orientações para o tratamento dos conteúdos selecionados, às tendências pedagógicas privilegiadas e à própria concepção de conhecimento a elas subjacente. Questionável é, também, a organização por ciclos e blocos de conteúdos, com a classificação das áreas curriculares e a indicação de processos avaliativos. Na indicação de experiências pedagógicas adequadas, os PCN revelam seu caráter de guia, não de referencial. Chegam a entrar em detalhes sobre o que, quando e como ensinar, às vezes com ares de receituário.

UBES ? O que levou à deterioração da Escola pública no Brasil?

N.S. Esse processo vem de longe. Quando o ensino público se reservava às elites e às camadas médias, os conteúdos e métodos procuravam acompanhar o que havia de mais avançado na pedagogia. Com o desenvolvimento industrial, iniciou-se timidamente a ampliação da instrução às massas trabalhadoras, com aumento considerável de vagas nas escolas públicas a partir do final dos anos 1950 e meados dos anos 1960. Essa expansão, porém, fez-se acompanhar da diferenciação do ensino, seja numa visão elitista, entendendo-se que o trabalhador braçal não precisa aprender as mesmas coisas que o intelectual, seja numa atitude paternalista, visando-se criar facilidades para um público que, de fato, encontrava maiores dificuldades para acompanhar um currículo moldado para quem tem outras experiências. No âmbito das políticas, a diferenciação se traduzia em menor destinação de recursos e, em conseqüência: não investimento na formação de professores aptos a trabalhar com essa nova realidade; escasso número de escolas, redundando em aumento dos turnos e seu corolário ? a redução do tempo de ensino. Tais características atingem dimensão mais exacerbada nos últimos anos, com a predominância da perspectiva neoliberal, de descaso em relação aos direitos sociais dos trabalhadores.
UBES ? Que avaliação a sra. faz do FUNDEF?

N.S. Parece-me democrática a idéia de fundo, pelo seu caráter distributivo. Mas o Fundef apresenta sérios problemas. De um lado, por restringir-se ao Ensino Fundamental (quando deveria englobar todo o Ensino Básico) e por deixar de lado a educação de adultos e a educação especial. De outro ? e esse é o principal problema ? , por se dar sob a ótica da redução de custos, com a falsa alegação de que são suficientes os recursos disponíveis. Além disso, na transferência de responsabilidades aos municípios, deixou-se às instâncias com menor poder exatamente o nível que apresenta mais problemas e que exigiria ações conjuntas, com envolvimento maior dos Estados e da União, não somente no repasse de recursos financeiros e seu controle. Os municípios mais pobres podem até ter tido alguma melhoria, mas ainda insignificante, diante das graves necessidades. E são eles os que enfrentam também a ausência de quadros e infra-estrutura para dar conta de aspectos relativos à qualidade de ensino.

UBES ? O que a sra. espera do próximo governo no setor educacional?

N.S. Tenho repetido que as necessárias mudanças na educação têm íntima relação com mudanças de base na sociedade: dependem delas, ao mesmo tempo em que podem impulsioná-las. O governo eleito assumiu o compromisso de incrementar a recuperação do desenvolvimento, com distribuição de renda. É de se esperar que dê conseqüência a um novo projeto, de caráter nacional, democrático e social, em contraposição ao projeto neoliberal (de submissão ao imperialismo, restrição das liberdades para o povo e desrespeito aos direitos sociais dos trabalhadores). Seu principal desafio consiste em inaugurar novo ciclo de crescimento em novas bases e, ao mesmo tempo, assumir a iniciativa de um conjunto de medidas distributivas, como o aumento do nível de emprego, a elevação progressiva do salário mínimo, a erradicação da fome, o enfrentamento da causa social da violência urbana.
A educação insere-se nesse contexto e exige medidas voltadas para a erradicação do analfabetismo ? passando por ações de emergência junto a adolescentes, jovens e adultos que não tiveram acesso à escola ou dela se evadiram precocemente ? mas implicando, necessariamente, o compromisso com a manutenção e desenvolvimento de um ensino de qualidade às atuais crianças, para que amanhã não venham a ser demanda de programas de alfabetização de jovens e adultos. E, ainda, para que tenham acesso garantido aos níveis superiores de ensino. Isto corresponde à necessidade de recuperar a idéia de sistema nacional de educação, com articulação dos graus, níveis, séries, modalidades de ensino e mecanismos democráticos de passagem de uns a outros, em regime de co-responsabilidade entre as instâncias gestionárias e as esferas de poder. Um sistema pautado nos seguintes princípios básicos: a educação como direito de todo cidadão; o dever do Estado na garantia da escola pública, gratuita, universal e laica; a igualdade de oportunidades e condições para o acesso à cultura, nas suas múltiplas manifestações, como fator de desenvolvimento das potencialidades do educando e de sua formação integral. Não é demais lembrar algumas diretrizes importantes: ampliação das oportunidades de acesso e permanência das massas populares na escola pública; garantia de boa qualidade do ensino ali ministrado; participação democrática da população organizada na gestão das instituições escolares e nos órgãos de decisão sobre o ensino; valorização dos profissionais da educação.
Aspecto de vital importância a ser enfrentado pelo próximo governo é a reversão das orientações neoliberais que predominaram nos últimos anos, das quais a mais premente é a substituição da lógica da redução de custos pela prática do aumento de investimento. Quer dizer, há que se sepultar a expressão gasto com educação em favor da idéia de destinação de recursos. Aqui, urgência urgentíssima deve ser dada ao aumento do percentual do PIB aplicado à educação ? matéria tratada no Plano Nacional de Educação da Sociedade Brasileira e que, mesmo tendo sofrido redução no PNE aprovado no Congresso Nacional, foi insistentemente vetada por FHC. Em matéria de financiamento é necessário, ainda, empreender mecanismos democráticos e eficazes de controle da aplicação das normas constitucionais quanto aos percentuais das receitas da União, dos Estados e do Município, efetivamente para manutenção e desenvolvimento do ensino. Além disso, repensar a criação, administração, controle e avaliação de fundos, contemplando todos os níveis e modalidades de ensino.
Obviamente, quando se fala em expectativas face ao novo governo, é imprescindível pensar-se na contraparte das organizações populares. Nossa participação não cessa com a eleição, muito ao contrário: exige que se garanta sustentação ao novo projeto, tanto sob a forma de apresentação de propostas e atuação concreta na sua viabilização, quanto na avaliação responsável de seus encaminhamentos. Nisto, as representações estudantis podem cumprir um importante papel e, creio, é esta a perspectiva da UBES.
São Vicente, 26/11/02
NEREIDE SAVIANI
Um resumo da biografia de Nereide Saviane
NEREIDE SAVIANI (1947) nasceu em Amparo-SP. Cursou o primário em escola de emergência da Zona Leste da Capital, o ginásio e o normal em escola particular confessional da mesma região.
Atuou como professora primária em escolas oficiais da periferia de São Paulo e na Escola de Aplicação da FEUSP; e como alfabetizadora e orientadora pedagógica de Educação de Adultos.
Integrou equipes de assessoria técnica, coordenação de programas e elaboração curricular de ensino regular e supletivo das Secretarias Municipal e Estadual de São Paulo.
No ensino superior, foi monitora do Ciclo Básico, quando aluna do 4º ano de Pedagogia da PUC/SP (1972); lecionou em cursos de Pedagogia (História da Educação) e de Literatura (Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º e 2º Graus).
Titulou-se Mestra em Supervisão e Currículo pela PUC/SP (1981) e Doutora em História e Filosofia da Educação (1993) pela mesma Universidade.
É autora de trabalhos e artigos sobre temáticas pedagógicas e sobre políticas educacionais, apresentados em eventos científicos nacionais e internacionais e publicados em periódicos nacionais.
Tem integrado equipes de estudos e pesquisas sobre pensamento educacional brasileiro, instituição escolar e pratica pedagógica, e orientado pesquisas de mestrado e doutorado envolvendo análises de teorias pedagógicas, reformas educacionais, programas e práticas de formação docente, propostas curriculares, aspectos da organização do trabalho pedagógico.
Tem ministrado cursos e proferido palestras em vários eventos promovidos por órgãos oficiais e não-governamentais ligados ao ensino básico, instituições de ensino superior, associações cientificas e sindicais, em municípios do estado de São Paulo e de outros estados da federação.
De 1994 a 2001 integrou o corpo docente do Programa de Estudos Pós-graduados em Educação: História, Política, Sociedade (antigo História e Filosofia da Educação), da PUC/SP. Atualmente é professora do mestrado stricto sensu em Educação da Universidade Católica da Santos (UniSantos).






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ELABORAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DO CURRÍCULO:
alguns enfoques e problemas atuais
Nereide Saviani
No conceito de currículo estão presentes, entre outras, as idéias de: conjunto de matérias/disciplinas escolares e respectivos programas; conjunto de atividades/experiências desenvolvidas na escola; conjunto de conhecimentos selecionados da cultura global da sociedade e organizados para fins de ensino/aprendizagem, constituindo-se num tipo peculiar de saber - o saber escolar.
Em geral, os elementos acima são abordados de forma segmentada, com o privilegiamento de um(ns) em detrimento de outros. Mas há esforços no sentido de concebê-los em unidade, na dialética do processo pedagógico - que envolve a relação currículo/didática como elementos do saber escolar. De qualquer modo, a visão de unidade não significa diluição das especificidades. Do ponto de vista do currículo, a especificidade estaria na questão dos conteúdos (que guardam relação com os diversos domínios da cultura). Do ponto de vista da didática, na definição dos métodos e processos de ensino.
O tratamento dicotomizado dos diversos elementos que compõem o saber escolar tem dificultado a análise dos problemas educacionais, a reflexão sobre suas causas e o vislumbre de indicadores para sua superação. Da visão fragmentária, que separa meios e fins, conteúdo e método, sujeito e objeto, teoria e prática, quantidade e qualidade - e tantos ouros componentes do processo pedagógico - decorrem interpretações superficiais, não raro falseadas, das questões educacionais, remetendo para "soluções" parcializadas, ou, quando muito, ecléticas, em propostas pedagógicas que justapõem, aleatoriamente, idéias/propostas oriundas de diversas matrizes teóricas, às vezes antagônicas.
Essa visão fragmentária é também a que separa o saber escolar de outros saberes que compõem a cultura global da sociedade. Da mera constatação, à crítica do que se detecta, passando-se pela defesa desta ou daquela situação e pela indicação do que o saber escolar deve/deveria ser, tal separação expressa-se sob diversas formas, tais como: a idéia de que a escola propõe-se a trabalhar saberes elaborados fora dela, transpondo-os tais e quais para as situações de ensino/aprendizagem; a de que a escola elabora um saber todo peculiar, cuja maior ou menor ligação com outros saberes depende dos objetivos, necessidades, interesses a ela intrínsecos e/ou extrínsecos; a de que a escola produz seu próprio saber, de forma autônoma, segundo o desenrolar das relações que se estabelecem no seu interior; a de que o processo pedagógico restringe-se a uma transposição didática dos saberes da sociedade em saber escolar.
A literatura acerca do tema do currículo envolve estudos com os mais diferentes enfoques, por exemplo: os que operam a crítica de como a escola organiza o currículo, indicando ou não como, na perspectiva defendida, deveria fazê-lo; os que buscam desvendar os processos e vicissitudes da elaboração e aplicação do currículo, através da análise de sua
história; os que se dedicam à organização de inventário-síntese de diversas abordagens e perspectivas
Nessa literatura é possível, também, constatar modos diferenciados de encarar o problema da constituição e difusão do saber escolar e de sua organização em currículos e programas. Há estudos que privilegiam os aspectos sociológicos, centram-se na relação escola/sociedade e analisam o currículo como reflexo dos (ou voltados para os) interesses e necessidades do indivíduo e/ou da sociedade. Outros, enfatizam os aspectos psicológicos, os relativos à aprendizagem, e analisam o currículo segundo o atendimento às características, necessidades e interesses do aluno, voltando-se para o exame da estrutura do sujeito cognoscente. Há, ainda, os que priorizam aspectos lógicos, os relativos ao conteúdo, e analisam o currículo segundo o atendimento às características do objeto cognoscível (a estrutura das matérias de ensino - áreas do conhecimento/disciplinas escolares). Num quarto tipo, encontram-se estudos que procuram contemplar os três anteriores, englobando aspectos sociológicos, psicológicos e lógicos da elaboração e aplicação do currículo - seja numa visão eclética, seja numa tentativa de síntese dialética.
A análise da problemática curricular vem contando com a contribuição de um campo recente de estudos e pesquisas: o da história do currículo e das disciplinas escolares - que se dedica não somente ao exame da evolução do "pensamento curricular" ou da história das idéias sobre o currículo e as matérias escolares, mas também ao estudo dos processos pelos quais vêm se dando a elaboração do currículo, os esforços de sua consolidação e os intentos de elaboração de reformas curriculares, bem como dos processos de constituição, "assentamento", mudança e até desaparecimento/ressurgimento das disciplinas escolares.
A literatura que analisa a história do currículo situa fatores que contribuem para conformar o perfil e definir o caráter do ensino e do currículo que a ele corresponda. Dependendo do tipo de ensino enfatizado (propedêutico ou de caráter "final"), da formação que se quer privilegiar (humanística, científica ou técnica), das necessidades a serem atendidas (do indivíduo e sua família, do Estado ou demandas do mercado) - diferenciam-se o caráter e a modalidade do currículo, distinguindo-se, também: as matérias, seu valor relativo e respectivos programas; a destinação de recursos financeiros e materiais às atividades especificamente curriculares; as formas e critérios de avaliação; as normas disciplinares; os modos de acompanhamento e controle das unidades escolares; o lugar e o papel dos saberes elementares (a leitura, a escrita, o cálculo), bem como o caráter e a freqüência das campanhas de alfabetização.
As obras que tratam da história das matérias escolares apontam fatores que determinam a evolução de uma disciplina ou área de estudo, sua inclusão/exclusão e valor relativo em currículos determinados. São fatores ligados tanto às finalidades educacionais da sociedade (exigências do regime sócio-político, da religião, da família, do mercado) quanto às específicas da escola, incluindo: demandas por tipos diferentes de ensino; características e transformações sociais e culturais dos públicos escolares; renovação/estabilidade do corpo docente; sistemática de avaliação e seleção (provas, exames, vestibulares, concursos); condições materiais (construções escolares, mobiliário, equipamentos) e recursos, com destaque para o livro didático. Entram em jogo, também, interesses de grupos diversos da sociedade: ação e prestígio de lideranças intelectuais; exigências e pleitos de professores e especialistas da educação; influência de centros acadêmicos de produção teórica/técnica e de centros de formação de profissionais das várias áreas; interferências de entidades culturais e associações de profissionais; além da política editorial de cada área.
Os estudos que abordam as questões curriculares na perspectiva histórica têm possibilitado: a avaliação dos impactos das propostas curriculares na prática escolar; o exame do discurso pedagógico, das regulamentações, das transformações no próprio campo, em relação com as mudanças no cenário educacional e no contexto social mais amplo; a captação de contradições, conflitos, relações de poder e prestígio envolvidos na tomada de decisões curriculares e no processo de constituição das disciplinas, sua instauração num currículo dado e o lugar de cada uma na hierarquia das matérias que o compõem; a desmistificação de idéias apresentadas (muitas vezes prescritas, pontificadas) em boa parte das produções teóricas e/ou políticas que discutem problemas educacionais.
Tais estudos revelam, também, que a elaboração e a implementação do curriculo (envolvendo a disposição das matérias e respectivos programas, bem como a seleção de métodos, técnicas, procedimentos, recursos necessários a seu desenvolvimento) resultam de processos conflituosos e de decisões negociadas. Com essa revelação, desmistifica-se a visão do currículo como mero resultado de decisões científico-racionais, baseadas no consenso (a idéia da possibilidade de elaboração de currículos ideais, perfeitamente amoldados numa dada teoria e aplicáveis tal qual concebidos), contribuindo para colocar-se sob suspeita o presumível caráter "democrático" das "consultas" feitas ao professorado acerca de propostas curriculares elaboradas por técnicos "especializados". Ao mesmo tempo, apontam os limites das concepções que se restringem à idéia do conflito (na visão da irremediável determinação do processo pedagógico por interesses dominantes e do limitado papel do professor como denunciador dos mecanismos de exploração), contribuindo para admitir-se a perspectiva de ocupação de espaços democráticos e forçar-se a negociação no sentido de atender aos interesses populares.
Outra descoberta dos estudos históricos é a de que há uma tendência, na elaboração do currículo e valorização de seus elementos - bem como na disposição/hierarquização das disciplinas escolares - a se obedecerem normas, critérios, modelos estabelecidos mundialmente. Pesquisa realizada por BENAVOT e outros (1991, pp 317-344) sobre a organização curricular de sistemas de ensino administrados pelo Estado em países ligados à UNESCO - período 1920/1986 -, revela a existência de currículos padronizados, nos quais predominam: um mesmo núcleo de matérias e respectivo valor relativo; o mesmo tempo destinado às matérias nucleares; o mesmo tipo de alteração curricular num dado período (por exemplo, introdução de línguas estrangeiras, diminuição do tempo para geografia e história e aumento para estudos sociais); obrigatoriedade das mesmas matérias não nucleares (educação religiosa e ética, atividades práticas ou profissionais) - dentre outras "coincidências". Na verdade, segundo os autores, "o currículo de massas é definido e prescrito diretamente através da influência de determinadas organizações internacionais (por exemplo, o Banco Mundial e as Nações Unidas) mediante modelos apontados por Estados-nação dominantes e por profissionais da educação que operam em escala mundial" (p. 339).
Obviamente, não se trata de tendência ou "vocação" à imitação que teria impelido os países pobres a se espelharem nos modernos grandes ricos, mas sim, o efeito do imperialismo: os países econômica e politicamente dominantes subjugam os demais e impõem, na divisão internacional do trabalho, padrões de cultura e de sua transmissão em massa. E este quadro tende a agravar-se nos dias de hoje, sob a égide do neoliberalismo, com a propalada globalização da economia a exigir o fim das fronteiras nacionais, no contexto "unipolar" da "nova ordem" mundial. A educação é agora colocada no centro das atenções, destinando-se a formar cidadãos capacitados a produzir e consumir "modernamente", no contexto da terceira revolução científico-tecnológica.
Tanto ou mais que antes, os organismos internacionais como PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), UNESCO/UNICEF, capitaneados pelo Banco Mundial, não tardam a apresentar as pautas neoliberais para o ajuste das políticas educacionais dos países periféricos. Terá sido outro o objetivo da "Conferência Mundial de Educação para Todos", realizada em Jomtien, Tailândia, em março de 1990, da qual derivaram os PLANOS DECENAIS dos vários países - entre eles, o do Brasil?
Resta saber em que consistiria, nesse quadro, a "satisfação das necessidades básicas da aprendizagem" - o tema da Conferência. A quais necessidades se quer atender? Às da própria aprendizagem (isto é, ao que é preciso garantir para que ela ocorra)? Às de indivíduos e/ou grupos sociais com interesses de emancipação e participação? Ou às do mercado (um "abstrato" mercado mundial, globalizante e globalizado)?
O documento que serviu de apoio à Conferência define "uma estratégia mundial para a ação concertada durante o decênio de 1990", no sentido de garantir educação para todos, numa "visão ampliada de educação básica", ou seja, a educação que "satisfaz certas necessidades instrínsecas do ser humano, cria a capacidade de satisfazer outras necessidades humanas básicas, aumenta a produtividade e ajuda a desenvolver a capacidade de fazer frente a aspectos cruciais dos desafios mundiais ..." do século XXI..(WCEFA,1990, p.79). Desafios estes que se caracterizam pela ameaça de estagnação e decadência da economia, disparidades econômicas entre os países e dentro de cada país, marginalização de populações, degradação do meio ambiente e rápido aumento da população - que limitam o desenvolvimento humano e para cujo enfrentamento requer-se a ação combinada de todos os povos no sentido de "criar um clima internacional mais cooperativo". E a educação básica é chamada a vincular o desenvolvimento de recursos humanos "com o desenvolvimento e a conservação dos indivíduos para contribuir ao crescimento econômico e ao progresso social". (Idem, p. 1 e outros trechos).
Para a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), trata-se de relacionar adequadamente a educação com as mudanças tecnológicas, voltando-se para a produção de (e o acesso a) bens e serviços modernos, de modo a permitir que os países latino-americanos incrementem a competitividade, a eqüidade e a sustentabilidade ambiental. Suas recomendações, quanto à "transformação produtiva com eqüidade", tendo por eixo a relação Educação e Conhecimento, voltam-se para o atingimento dos seguintes objetivos: cidadania (responsabilidade social, transmissão de valores, formação democrática); competitividade (aquisição de habilidades e destrezas para o desempenho com desenvoltura no mundo moderno); eqüidade (igualdade de oportunidades, compensação das diferenças); desempenho (avaliação dos rendimentos, incentivo à inovação); integração (capacidade institucional dos países); descentralização (maior autonomia à ação educativa, maior responsabilidade dos agentes em relação aos resultados). (Cf. CEPAL/UNESCO, 1992, vários trechos). A questão do acesso e produção do conhecimento coloca-se como central para a educação, o que exige "um esforço sistemático para aprofundar as interrelações entre o sistema educacional, a capacitação, a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico". (Idem, p. 15).
Tudo isto, evidentemente, traz implicações para o currículo. Questões relativas a conhecimento, informação, domínio técnico-científico, passam a ocupar lugar de destaque, apontando para o privilegiamento de áreas como: linguagem - artes lingüísticas, discurso, expressão oral, leitura e escrita; matemática - solução de problemas, desenvolvimento da lógica; ciências - especialmente as "exatas" e as da natureza; informática - as novas tecnologias. A preocupação com a formação de recursos humanos flexíveis - força de trabalho com nível mais alto de conhecimento e capacidade de se formar e atualizar-se continuadamente - recobra a ênfase no aprender a aprender / aprender a estudar, como necessidade dos alunos. Ensino à distância, técnicas de estudo individualizado, aprimoramento dos procedimentos e técnicas de avaliação apresentam-se como imprescindíveis tanto para os estudantes quanto para os professores, dos quais se exige o aprender a ensinar.
Obececendo à orquestração do imperialismo, os países periféricos vão reformulando seus planos, adaptando-os às "recomendações" do Banco Mundial e de outros organismos internacionais. No caso do Brasil, o Plano Decenal de Educação para Todos reflete bem essa tendência. Mais ainda que o Plano, destaca-se o pronunciamento do Presidente Fernando Henrique Cardoso, em fevereiro de 1995, quando anunciou as cinco prioridades do Projeto "Acorda Brasil, é hora da escola": 1) dinheiro do ensino básico diretamente para as escolas; 2) valorização do professor, preparando-o para ensinar melhor, via Sistema Nacional de Educação à Distância / televisão educativa - um aparelho de TV em cada escola oficial; 3) melhoria da qualidade do material didático - livros de acordo com as necessidades dos alunos; 4) definição do conteúdo do ensino - matérias obrigatórias em todos os Estados; 5) avaliação das escolas - aplicação de testes em todos os alunos e premiação das escolas com melhores resultados. Especificamente sobre o currículo, FHC afirmou: "...o Ministro da Educação vai reunir os secretários da Educação de todos os Estados, para estabelecer, junto com eles, esse currículo básico". (FSP, 08/02/95, p. 1-8).
O que estará sendo estabelecido? Como serão concebidas as necessidades básicas de aprendizagem dos estudantes brasileiros, em nível nacional? Precisamos estar alertas, pois, muito provavelmente, as medidas virão acompanhadas de um discurso (aparentemente) democrático, incorporando até idéias e propostas já defendidas, em outros contextos, pelos movimentos docente, estudantil e popular - o que, aliás, tem sido uma das marcas do discurso neoliberal. E se, imposto ou proposto, "baixado" ou estabelecido mediante consultas, o currículo (bem como sua implementação) supõe, como dissemos, negociações - que, ao fim e ao cabo, se dão na sala de aula -, ao professor apresenta-se o desafio de buscar conhecer os fundamentos das diferentes propostas sobre as quais precisa tomar decisões.
Por exemplo, como se posicionar face a propostas como "pedagogia construtivista" ou "qualidade total em educação" - para citarmos as que mais recentemente vêm se apresentando às redes de ensino - se o professor não tem acesso senão a leituras de segunda ou terceira mão, isto é, a argumentos (de defesa ou crítica), elaborados segundo a leitura de adeptos ou desafetos? E face a propostas que assumem o ar de ecletismo, colocando lado a lado "pontos positivos, aproveitáveis" de diferentes concepções? Ou àquelas que retomam, com ares democráticos, aspectos já antes criticados (às vezes até pelos mesmos atuais proponentes) como elitistas, autoritários? Referimo-nos, neste caso, ao modo como, hoje, alguns dos que já foram adeptos da "pedagogia crítico-social dos conteúdos" apresentam, com outra roupagem, teses/propostas que se amoldariam muito bem ao tecnicismo da década de 70, tão duramente por eles criticado. Estarão fazendo alguma espécie de autocrítica, ou quererão fazer crer que perseguem os mesmos objetivos de democratização do saber elaborado, agora com meios "mais modernos"?...
Neste sentido, cabe reiterar o que propusemos em artigo para a Revista do SINPEEM (SAVIANI, N.,1995, p. 31), acerca da necessidade de os professores exigirem oportunidades de acesso aos fundamentos teóricos de seu próprio trabalho, para diminuição da desigualdade de condições nas negociações: desde conhecimentos relativos às matérias que lecionam (conforme as caracerísticas das ciências na atualidade), às raízes históricas e bases teóricas das concepções de educação escolar e problemas de elaboração e implementação de currículos e programas, em relação com questões didáticas, passando necessariamente pelo aprofundamento do estudo sobre concepção de conhecimento e seu tratamento no processo pedagógico. E entendemos que esta exigência pode (e deve) constar das pautas de reivindicações dos Sindicatos. O investimento na formação do professor não se limita à realização de cursos, por melhores que possam ser. Passa, também, pela melhoria das condições de trabalho, nas quais se incluem oportunidades de estudo individual, debates, e, principalmente, trabalho em equipe - o que não se consegue sem salário e jornada decentes, de modo a não ser necessária a desgastante maratona de uma escola a outra, que caracteriza o dia-a-dia da maioria dos professores.
Por fim, é preciso considerar que a luta pela melhoria da qualidade do ensino pressupõe a luta pela sobrevivência do ensino público e gratuito - hoje ameaçado pela onda privatista neoliberal. Conseqüentemente, a luta dos profissionais da educação há de ser, essencialmente, a da resistência à aplicação do projeto neoliberal em nosso país - pelo que ele significa de ataque à soberania nacional, às liberdades democráticas e aos direitos sociais dos trabalhadores.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENAVOT, Aaron e outros, "El conocimiento para las massas. Modelos mundiales y curricula nacionales" in Revista de Educación, 295, Historia del Curriculum - I , Madrid, 1991.
CARDOSO, Fernando Henrique, Pronunciamento in Folha de São Paulo, 08/02/95, p. 1.8.
CEPAL/UNESCO, Educacion y Conocimiento: eje de la tranformacion productiva con equidad, Santiago de Chile, Nações Unidas, 1992.
SAVIANI, Nereide, Saber Escolar, Currículo e Didática: problemas da unidade conteúdo/método no processo pedagógico, Campinas, Autores Associados, 1994.
SAVIANI, Nereide, "A conversão do conhecimento científico em Saber Escolar: uma luta inglória?" in Revista do SINPEEM, No. 2, São Paulo, fevereiro/1995.
VÁRIOS, Necesidades básicas de aprendizaje. Estrategias de acción, Santiago, Chile, UNESCO/IDRC, 1993.

ENTREVISTA à UBES
Nereide Saviani
UBES - Que balanço a sra. faz dos oito anos do governo FHC no setor educacional?
N.S. O governo FHC seguiu, em Educação, a política neoliberal, que norteou suas ações em todos os setores, pautada na visão de estado mínimo e na lógica do mercado. Desobrigando-se das responsabilidades em relação aos direitos sociais, marcou-se pela transferência de responsabilidades: do poder público para a família, a comunidade - apelo a serviços voluntários, parcerias, terceirização, privatização; e do poder central para os poderes locais. Nessa mesma linha, invocando a necessidade de ajustar a relação custo-benefício, centrou-se no corte de despesas, na redução do investimento. Seu Ministro, aliás, repetiu, nos oito anos à frente da pasta de Educação, o seguinte jargão: a quantidade está resolvida, o problema é a qualidade; os recursos são suficientes, o problema é que são mal gastos e mal distribuídos ... Tratada como mercadoria, à qual se tem acesso na medida do poder aquisitivo, a educação se voltaria para atender ao cliente, não necessariamente o aluno e seus familiares, mas o empresariado, interessado num tipo determinado de mão de obra, para um mercado cada vez mais excludente, que se responsabilizaria por premiar os bons, ou "mais aptos", e castigar os maus, ou "pouco talentosos".
Seguindo recomendações dos organismos internacionais, capitaneados pelo Banco Mundial, suas medidas incluíram reformas administrativas e pedagógicas, como a municipalização do ensino fundamental, a modificação da duração dos ciclos escolares, novas propostas curriculares, mecanismos de avaliação do rendimento escolar e docente. Manteve-se fiel aos cinco pontos anunciados já no início do primeiro mandato, quando, em cadeia de rádio e televisão, no dia sete de fevereiro de 1995, o Presidente inaugurou o Projeto Acorda, Brasil, está na hora da escola! Eis as cinco principais balizas do seu governo para a educação, então proclamadas: 1) dinheiro do ensino básico diretamente do Governo Federal para as escolas - para evitar desperdícios e sobrar para salários; 2) valorização do professor - prepará-lo para ensinar melhor, através da TV educativa, num sistema de ensino à distância (garantir um aparelho de TV em cada escola oficial); 3) investimento em material didático - melhoria da qualidade, regularização e pontualidade na entrega às escolas; 4) definição do conteúdo do ensino - matérias obrigatórias em todo o país, currículo básico nacional; 5) sistema unificado de avaliação - verificação dos pontos fracos, premiação das escolas com melhores resultados. (Cf. FSP, 08/02/95, p. 1.8).
Daí em diante, foram sendo tomadas medidas diversas - não se hesitando em apelar para Emendas Constitucionais - tais como o Fundef, o Enem, o Provão, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Foi no seu governo que se concluiu a elaboração da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), em meio a manobras e injunções que descaracterizaram a proposta que vinha sendo discutida no Congresso Nacional, com a participação do Fórum Nacional em Defesa da Educação Pública. E ainda os vetos ao Plano Nacional de Educação, cuja versão governamental se contrapôs à proposta da sociedade brasileira, aprovada no Coned (Congresso Nacional de Educação).
UBES - Como foi a participação dos docentes no processo de elaboração da Constituição?
N.S. Foi bastante significativa a participação dos docentes na apresentação de propostas à Assembléia Nacional Constituinte, convocada a partir da eleição de 1986. Por meio de organizações sindicais, culturais e científicas, vinculando-se a entidades estudantis e de outros setores da sociedade civil, bem como a partidos e outras agremiações, realizaram-se grandes debates, em eventos estaduais e nacionais, em torno de itens relacionados à democratização da educação em nosso país.
Selada a Nova Carta, em 1988, iniciou-se imeditamente a discussão sobre sua regulamentação em matéria de educação, pela LDB, que já tinha merecido um artigo de Dermeval Saviani, elaborado sob a forma de anteprojeto, em 1987. Debatido em diversos eventos educacionais, o texto foi apresentado à Câmara Federal como projeto de lei, em 1988, por iniciativa do então Deputado Octávio Elísio. Deu-se prosseguimento ao processo de participação, já com a constituição do Fórum Nacional em Defesa da Educação Pública, integrado por fóruns estaduais da mesma natureza. Congressos de entidades passaram a ter como pauta obrigatória o debate das temáticas da LDB. Propostas as mais diversas passaram a ser encaminhadas aos parlamentares. Caravanas e mais caravanas se dirigiram a Brasília, com a finalidade de percorrer gabinetes e acompanhar sessões de discussão e votação da LDB, enquanto atos públicos eram organizados em todos os estados da federação.
UBES - Que avanços teríamos se adotássemos a proposta de LDB da Câmara?
N.S. O projeto original apresentava importantes pontos, que foram se perdendo ao longo dos diferentes substitutivos. O principal deles, a meu ver, é a idéia de sistema nacional de educação, que subentende a perspectiva de construção de uma escola comum, unitária, no espírito da educação politécnica. Algumas propostas concretas associam-se e esses princípios: redução da jornada de trabalho (viabilização de freqüência à escola por jovens e adultos, com a possibilidade de estudar no horário de trabalho); salário-creche; delimitação do que pode e do que não pode ser considerado gasto com ensino; verbas públicas exclusivamente para o ensino público; Conselho Nacional de Educação associado ao Fórum Nacional de Educação; regulamentação da carreira do professor, prevendo-se jornada única e regime jurídico único; caráter de universidade ao Ensino Superior (inseparável da pesquisa). O Substitutivo Jorge Hage manteve a idéia de sistema, mas dificultada, ao prever a organização de sistemas municipais; abrindo brechas ao corporativismo na composição do Conselho Nacional de Educação, com a representação por entidade; relegando caráter consultivo ao Fórum Nacional de Educação; não prevendo formas nem prazos para exigência de organização do ensino superior em forma de universidade, permitindo a manutenção de faculdades isoladas; admitindo a permanência da categoria horista na carreira docente; permitindo a destinação de recursos a escolas particulares. Debatido na Câmara, o texto foi encaminhado ao Senado, já com algumas modificações, a principal delas no Título V ("Do Sistema Nacional de Educação"), que passou para "Da Organização da Educação Nacional". No Senado, foi posto em discussão um novo Substitutivo (Cid Sabóia), que manteve a estrutura do texto vindo da outra casa, incorporando aspectos aceitáveis de um outro projeto, que tinha sido apresentado pelo Senador Darcy Ribeiro. Foram realizadas novas audiências públicas, com a participação de entidades educacionais, além de consultas a representantes do governo e dos partidos. Embora já bastante distante da perspectiva do original, o texto resultante desse processo apresentava certa organicidade, em relação à legislação ainda vigente, disposta na esteira das reformas implantadas no período da ditadura militar e de suas alterações tópicas, realizadas durante a chamada transição democrática. E, também, em relação ao projeto que acabou se impondo, na forma do Substitutivo Darcy Ribeiro. Os principais avanços seriam obtidos, sem dúvida, com a aprovação do projeto original - e as propostas concretas acima mencionadas falam por si.
UBES - Como a sra. avalia a LDB aprovada?
N.S. Compartilho da posição de Dermeval Saviani, que identifica nela a predominância de uma concepção neoliberal. Em seu livro A nova lei da educação: trajetória, limites e perspectivas (Editora Autores Associados, 1997), o autor analisa as leis anteriores e os projetos que tramitaram no Congresso Nacional até a aprovação da Lei 9394/96. Vale a pena percorrer sua argumentação ao caracterizar: a LDB 4024/61 como de concepção liberal; as reformas do ensino superior (Lei 5540/68) e de 1º e 2º Graus (Lei 5692/71) como de concepção tecnicista. E, para a LDB atual: o projeto original é associado a uma perspectiva socialista; o Substitutivo Jorge Hage, à concepção social-democrata, progressista; o Substitutivo Angela Amin (o texto que, afinal, deu origem ao Substitutivo Cid Sabóia), à concepção conservadora - por ironia, menos pior que aquele que veio a ser aprovado.
Por que neoliberal? Pela sua visão "minimalista", na lógica do Estado mínimo, com transferência de responsabilidades: inverte o disposto na Constituição - a educação como dever do Estado e da família (aparece como dever da família e do Estado); omite a idéia de ensino obrigatório e gratuito; concede liberdade de ensino à iniciativa privada, sem normas para coibir abusos. Pelo caráter regulador atribuído ao Estado, no âmbito da União, centralizando controle orçamentário e avaliação, e descentralizando a execução: responsabilidade aos municípios pelo Ensino Fundamental e, aos Estados, pelo Ensino Médio; não definição de responsáveis pelo Ensino Superior nem pela Educação Infantil - o que pode deixá-los à mercê da iniciativa privada.
Na questão da valorização dos profissionais do ensino, omite o regime jurídico único. Desconsidera a proposta de Fórum Nacional de Educação e apresenta um Conselho Nacional de Educação desfigurado, sem definição de composição e nos termos da Medida Provisória, já em funcionamento. É totalmente vago em relação ao Ensino Médio - nada define quanto à função profissionalizante, omite o ensino técnico. No ensino superior, prevalece o hiato ensino versus pesquisa, estende em demasia o prazo para a titulação de professores (1/3 em 8 anos), não prevê a paridade na gestão das instituições.
É preciso considerar, no entanto, que há também pontos positivos no texto aprovado. No que concerne ao conceito de educação, mantém uma concepção ampla, com os preceitos: igualdade de condições, pluralismo de idéias, respeito às diferenças, bem como a relação entre educação, trabalho e práticas sociais. Estabelece o ensino superior como regra para a formação de professores de todos os níveis (apesar de admitir o Instituto Superior de Educação, a Escola Normal Superior, o Curso Normal Superior, paralelamente às universidades). Quanto aos recursos financeiros, estipula a vinculação de percentuais a serem aplicados à educação, define o que pode e o que não pode ser considerado gasto com ensino e prazos para repasse dos valores. Inclui um Capítulo para as "minorias" (educação especial, educação indígena). E, nas disposições gerais, estabelece: admissão dos profissionais da educação por concurso público; a década da educação; diretrizes quanto à permanência na escola (aumento do número de dias letivos e, progressivamente, a instituição da escola em tempo integral).
Daí porque, sancionada a lei, colocou-se a necessidade de manter a luta, em dois sentidos: quanto aos pontos positivos, para regulamentá-los e exigir seu efetivo cumprimento; quanto aos negativos, para forjar a resistência ativa, visando-se à sua alteração e à busca de alternativas, por exemplo, com a elaboração do PNE - Plano Nacional de Educação. Para tanto, impunha-se a união de forças, com ampliação das pautas, para além das questões educacionais (como a redução da jornada de trabalho), o que exigiria a articulação das organizações educacionais com as organizações operárias e com partidos e outras entidades da sociedade civil, compreendendo a atuação junto aos parlamentares.

UBES - Que razões levou o prof. Darcy Ribeiro a apresentar o substitutivo?
N.S. Não ficou suficientemente claro isto, à época. E não me atrevo a especular sobre o assunto, até porque ele não mais pode confirmar/retrucar ou se defender de eventuais críticas. Devo ressalvar que sempre considerei Darcy Ribeiro um grande intelectual, que deu enormes contribuições ao estudo da sociedade brasileira e de nosso sistema educacional, inclusive com ações concretas de peso, quando à frente de órgãos públicos. Mesmo por ocasião dos debates da LDB, nunca me somei aos que o desmereciam face às posições que defendia. Não deixei de lamentar, como a maioria, o fato de ele ter se mantido alinhado a FHC. Até aí, um direito que lhe assistia. Mas, impossível aceitar o expediente, nada democrático, de fazer correr seu projeto por fora do processo instaurado para a discussão da LDB. Com ou sem esta intenção, o que ele fez foi esvaziar o texto da Câmara, cumprindo o papel de afastar as pressões das forças organizadas, deixando caminho livre para medidas tópicas (fundão, provão, CNE etc), que já vinham sendo matérias de Emendas Constitucionais e Medidas Provisórias.
UBES - Que avaliação a sra. tem dos parâmetros curriculares introduzidos na gestão FHC?
N.S. Tratei dos PCN em dois artigos. Um deles, Parâmetros Curriculares Nacionais: o que dispõem para o Ensino Fundamental? - corresponde à exposição na mesa redonda "Política de Ensino Fundamental - Parâmetros Curriculares Nacionais". Tema Educação Básica, no I CONED - Belo Horizonte/MG, 02/08/96. Disponível em Disquete: Anais do I Coned, Programa "B". Publicado em Caderno Pedagógico Nº 02, Curitiba: APP/Sindicato, 1999, pp. 21-29. O outro, Bases legais e conceituais da reforma curricular do Ensino Médio no Estado de São Paulo, foi publicado na Revista de Educação da Apeoesp. Nº 11. São Paulo, agosto de 2000 - pp. 14-25. Vou salientar alguns pontos ali abordados.
As justificativas do MEC para a utilização da expressão parâmetros curriculares ao invés de currículo básico incluem as preocupações de: garantir a autonomia das diferentes instituições na definição de propostas próprias; não imprimir caráter obrigatório à programação apresentada; abrir-se a revisões periódicas e sistemáticas. Além disso, supõem a idéia de referencial para o estabelecimento de uma política de ensino para o país e a reestruturação de propostas educacionais gerais, preservando-se as especificidades locais. Na aparência, tudo muito democrático.
No entanto, a definição dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), tanto nos objetivos declarados, quanto no processo de elaboração e no produto apresentado, reflete o autoritarismo da chamada visão "científico-racional". Quanto aos objetivos: ao definir as capacidades a serem formadas nos alunos, os PCN pretendem constituir-se "em uma referência para os investimentos do Estado" na educação, visando subsidiar e orientar: a elaboração ou revisão curricular; a formação inicial e continuada dos professores; a produção de livros e outros materiais didáticos; as discussões pedagógicas internas às escolas; a elaboração de projetos educativos; a avaliação do sistema nacional de educação. Como acreditar em não obrigatoriedade, com todas essas finalidades declaradas? Especialmente no que se refere à avaliação, sabe-se o quanto ela pode vir a dirigir e moldar, ao invés de simplesmente "orientar e subsidiar". Não nos esqueçamos das avaliações "externas", realizadas em todos os níveis...
No processo de elaboração, priorizou-se a ação de técnicos e especialistas ("competentes"), relegando-se ao professorado um papel burocrático, no fim da linha. Depois de tudo definido, ao nível do MEC e das Secretarias de Educação, é que as equipes pedagógicas das escolas entram em ação, para adequar o estabelecido à sua realidade. Na verdade, o que sobra aos professores/as é o planejamento e execução de projetos específicos. A "consulta" se deu a posteriori: acadêmicos e professores - sem explicitação dos critérios de seleção - foram acionados individualmente, não a partir de instituições ou entidades, e solicitados a apreciar os documentos, sendo submetidos ao constrangimento de decidir, pessoalmente, sobre emitir ou não o parecer e, em qualquer dos casos, tendo que buscar, por si próprios, os meios de tornar pública sua decisão e de divulgar suas opiniões acerca dos PCN, enviadas ou não ao MEC. Aos que optaram por enviar seu parecer, não se ofereceu qualquer possibilidade de controle sobre o uso que dele seria feito. Os seminários regionais, com participação de representantes de Secretarias de Educação e de instituições públicas e privadas, não apresentaram espaço à participação do professorado.
Sobre o produto apresentado, considero que há problemas relativos às orientações para o tratamento dos conteúdos selecionados, às tendências pedagógicas privilegiadas e à própria concepção de conhecimento a elas subjacente. Questionável é, também, a organização por ciclos e blocos de conteúdos, com a classificação das áreas curriculares e a indicação de processos avaliativos. Na indicação de experiências pedagógicas adequadas, os PCN revelam seu caráter de guia, não de referencial. Chegam a entrar em detalhes sobre o que, quando e como ensinar, às vezes com ares de receituário.
UBES - O que levou à deterioração da Escola pública no Brasil?
N.S. Esse processo vem de longe. Quando o ensino público se reservava às elites e às camadas médias, os conteúdos e métodos procuravam acompanhar o que havia de mais avançado na pedagogia. Com o desenvolvimento industrial, iniciou-se timidamente a ampliação da instrução às massas trabalhadoras, com aumento considerável de vagas nas escolas públicas a partir do final dos anos 1950 e meados dos anos 1960. Essa expansão, porém, fez-se acompanhar da diferenciação do ensino, seja numa visão elitista, entendendo-se que o trabalhador braçal não precisa aprender as mesmas coisas que o intelectual, seja numa atitude paternalista, visando-se criar facilidades para um público que, de fato, encontrava maiores dificuldades para acompanhar um currículo moldado para quem tem outras experiências. No âmbito das políticas, a diferenciação se traduzia em menor destinação de recursos e, em conseqüência: não investimento na formação de professores aptos a trabalhar com essa nova realidade; escasso número de escolas, redundando em aumento dos turnos e seu corolário - a redução do tempo de ensino. Tais características atingem dimensão mais exacerbada nos últimos anos, com a predominância da perspectiva neoliberal, de descaso em relação aos direitos sociais dos trabalhadores.
UBES - Que avaliação a sra. faz do FUNDEF?
N.S. Parece-me democrática a idéia de fundo, pelo seu caráter distributivo. Mas o Fundef apresenta sérios problemas. De um lado, por restringir-se ao Ensino Fundamental (quando deveria englobar todo o Ensino Básico) e por deixar de lado a educação de adultos e a educação especial. De outro - e esse é o principal problema - , por se dar sob a ótica da redução de custos, com a falsa alegação de que são suficientes os recursos disponíveis. Além disso, na transferência de responsabilidades aos municípios, deixou-se às instâncias com menor poder exatamente o nível que apresenta mais problemas e que exigiria ações conjuntas, com envolvimento maior dos Estados e da União, não somente no repasse de recursos financeiros e seu controle. Os municípios mais pobres podem até ter tido alguma melhoria, mas ainda insignificante, diante das graves necessidades. E são eles os que enfrentam também a ausência de quadros e infra-estrutura para dar conta de aspectos relativos à qualidade de ensino.
UBES - O que a sra. espera do próximo governo no setor educacional?
N.S. Tenho repetido que as necessárias mudanças na educação têm íntima relação com mudanças de base na sociedade: dependem delas, ao mesmo tempo em que podem impulsioná-las. O governo eleito assumiu o compromisso de incrementar a recuperação do desenvolvimento, com distribuição de renda. É de se esperar que dê conseqüência a um novo projeto, de caráter nacional, democrático e social, em contraposição ao projeto neoliberal (de submissão ao imperialismo, restrição das liberdades para o povo e desrespeito aos direitos sociais dos trabalhadores). Seu principal desafio consiste em inaugurar novo ciclo de crescimento em novas bases e, ao mesmo tempo, assumir a iniciativa de um conjunto de medidas distributivas, como o aumento do nível de emprego, a elevação progressiva do salário mínimo, a erradicação da fome, o enfrentamento da causa social da violência urbana.
A educação insere-se nesse contexto e exige medidas voltadas para a erradicação do analfabetismo - passando por ações de emergência junto a adolescentes, jovens e adultos que não tiveram acesso à escola ou dela se evadiram precocemente - mas implicando, necessariamente, o compromisso com a manutenção e desenvolvimento de um ensino de qualidade às atuais crianças, para que amanhã não venham a ser demanda de programas de alfabetização de jovens e adultos. E, ainda, para que tenham acesso garantido aos níveis superiores de ensino. Isto corresponde à necessidade de recuperar a idéia de sistema nacional de educação, com articulação dos graus, níveis, séries, modalidades de ensino e mecanismos democráticos de passagem de uns a outros, em regime de co-responsabilidade entre as instâncias gestionárias e as esferas de poder. Um sistema pautado nos seguintes princípios básicos: a educação como direito de todo cidadão; o dever do Estado na garantia da escola pública, gratuita, universal e laica; a igualdade de oportunidades e condições para o acesso à cultura, nas suas múltiplas manifestações, como fator de desenvolvimento das potencialidades do educando e de sua formação integral. Não é demais lembrar algumas diretrizes importantes: ampliação das oportunidades de acesso e permanência das massas populares na escola pública; garantia de boa qualidade do ensino ali ministrado; participação democrática da população organizada na gestão das instituições escolares e nos órgãos de decisão sobre o ensino; valorização dos profissionais da educação.
Aspecto de vital importância a ser enfrentado pelo próximo governo é a reversão das orientações neoliberais que predominaram nos últimos anos, das quais a mais premente é a substituição da lógica da redução de custos pela prática do aumento de investimento. Quer dizer, há que se sepultar a expressão gasto com educação em favor da idéia de destinação de recursos. Aqui, urgência urgentíssima deve ser dada ao aumento do percentual do PIB aplicado à educação - matéria tratada no Plano Nacional de Educação da Sociedade Brasileira e que, mesmo tendo sofrido redução no PNE aprovado no Congresso Nacional, foi insistentemente vetada por FHC. Em matéria de financiamento é necessário, ainda, empreender mecanismos democráticos e eficazes de controle da aplicação das normas constitucionais quanto aos percentuais das receitas da União, dos Estados e do Município, efetivamente para manutenção e desenvolvimento do ensino. Além disso, repensar a criação, administração, controle e avaliação de fundos, contemplando todos os níveis e modalidades de ensino.
Obviamente, quando se fala em expectativas face ao novo governo, é imprescindível pensar-se na contraparte das organizações populares. Nossa participação não cessa com a eleição, muito ao contrário: exige que se garanta sustentação ao novo projeto, tanto sob a forma de apresentação de propostas e atuação concreta na sua viabilização, quanto na avaliação responsável de seus encaminhamentos. Nisto, as representações estudantis podem cumprir um importante papel e, creio, é esta a perspectiva da UBES.
São Vicente, 26/11/02
NEREIDE SAVIANI
Um resumo da biografia de Nereide Saviane
NEREIDE SAVIANI (1947) nasceu em Amparo-SP. Cursou o primário em escola de emergência da Zona Leste da Capital, o ginásio e o normal em escola particular confessional da mesma região.
Atuou como professora primária em escolas oficiais da periferia de São Paulo e na Escola de Aplicação da FEUSP; e como alfabetizadora e orientadora pedagógica de Educação de Adultos.
Integrou equipes de assessoria técnica, coordenação de programas e elaboração curricular de ensino regular e supletivo das Secretarias Municipal e Estadual de São Paulo.
No ensino superior, foi monitora do Ciclo Básico, quando aluna do 4º ano de Pedagogia da PUC/SP (1972); lecionou em cursos de Pedagogia (História da Educação) e de Literatura (Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1º e 2º Graus).
Titulou-se Mestra em Supervisão e Currículo pela PUC/SP (1981) e Doutora em História e Filosofia da Educação (1993) pela mesma Universidade.
É autora de trabalhos e artigos sobre temáticas pedagógicas e sobre políticas educacionais, apresentados em eventos científicos nacionais e internacionais e publicados em periódicos nacionais.
Tem integrado equipes de estudos e pesquisas sobre pensamento educacional brasileiro, instituição escolar e pratica pedagógica, e orientado pesquisas de mestrado e doutorado envolvendo análises de teorias pedagógicas, reformas educacionais, programas e práticas de formação docente, propostas curriculares, aspectos da organização do trabalho pedagógico.
Tem ministrado cursos e proferido palestras em vários eventos promovidos por órgãos oficiais e não-governamentais ligados ao ensino básico, instituições de ensino superior, associações cientificas e sindicais, em municípios do estado de São Paulo e de outros estados da federação.
De 1994 a 2001 integrou o corpo docente do Programa de Estudos Pós-graduados em Educação: História, Política, Sociedade (antigo História e Filosofia da Educação), da PUC/SP. Atualmente é professora do mestrado stricto sensu em Educação da Universidade Católica da Santos (UniSantos).







31.10.04
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A Universidade Operacional

A Reforma do Estado brasileiro pretende modernizar e racionalizar as atividades estatais, redefinidas e distribuídas em setores, um dos quais é designado Setor dos Serviços Não-Exclusivos do Estado, isto é, aqueles que podem ser realizados por instituições não estatais, na qualidade de prestadoras de serviços. O Estado pode prover tais serviços, mas não os executa diretamente nem executa uma política reguladora dessa prestação. Nesses serviços estão incluídas a educação, a saúde, a cultura e as utilidades públicas, entendidas como "organizações sociais" prestadoras de serviços que celebram "contratos de gestão" com o Estado.
A Reforma tem um pressuposto ideológico básico: o mercado é portador de racionalidade sociopolítica e agente principal do bem-estar da República. Esse pressuposto leva a colocar direitos sociais (como a saúde, a educação e a cultura) no setor de serviços definidos pelo mercado. Dessa maneira, a Reforma encolhe o espaço público democrático dos direitos e amplia o espaço privado não só ali onde isso seria previsível ? nas atividades ligadas à produção econômica ?, mas também onde não é admissível ? no campo dos direitos sociais conquistados.
A posição da universidade no setor de prestação de serviços confere um sentido bastante determinado à idéia de autonomia universitária e introduz termos como "qualidade universitária", "avaliação universitária" e "flexibilização da universidade".
De fato, a autonomia universitária se reduz à gestão de receitas e despesas, de acordo com o contrato de gestão pelo qual o Estado estabelece metas e indicadores de desempenho, que determinam a renovação ou não renovação do contrato. A autonomia significa, portanto, gerenciamento empresarial da instituição e prevê que, para cumprir as metas e alcançar os indicadores impostos pelo contrato de gestão, a universidade tem "autonomia" para "captar recursos" de outras fontes, fazendo parcerias com as empresas privadas.
A "flexibilização" é o corolário da "autonomia". Na linguagem do Ministério da Educação, "flexibilizar" significa: 1) eliminar o regime único de trabalho, o concurso público e a dedicação exclusiva, substituindo-os por "contratos flexíveis", isto é, temporários e precários; 2) simplificar os processos de compras (as licitações), a gestão financeira e a prestação de contas (sobretudo para proteção das chamadas "outras fontes de financiamento", que não pretendem se ver publicamente expostas e controladas); 3) adaptar os currículos de graduação e pós-graduação às necessidades profissionais das diferentes regiões do país, isto é, às demandas das empresas locais (aliás, é sistemática nos textos da Reforma referentes aos serviços a identificação entre "social" e "empresarial"; 4) separar docência e pesquisa, deixando a primeira na universidade e deslocando a segunda para centros autônomos.
A "qualidade" é definida como competência e excelência, cujo critério é o "atendimento às necessidades de modernização da economia e desenvolvimento social"; e é medida pela produtividade, orientada por três critérios: quanto uma universidade produz, em quanto tempo produz e qual o custo do que produz. Em outras palavras, os critérios da produtividade são quantidade, tempo e custo, que definirão os contratos de gestão. Observa-se que a pergunta pela produtividade não indaga: o que se produz, como se produz, para que ou para quem se produz, mas opera uma inversão tipicamente ideológica da qualidade em quantidade. Observa-se também que a docência não entra na medida da produtividade e, portanto, não faz parte da qualidade universitária, o que, aliás, justifica a prática dos "contratos flexíveis". Ora, considerando-se que a proposta da Reforma separa a universidade e o centro de pesquisa, e considerando-se que a "produtividade" orienta o contrato de gestão, cabe indagar qual haverá de ser o critério dos contratos de gestão da universidade, uma vez que não há definição de critérios para "medir" a qualidade da docência.
O léxico da Reforma é inseparável da definição da universidade como "organização social" e de sua inserção no setor de serviços não-exclusivos do Estado. Ora, desde seu surgimento (no século 13 europeu), a universidade sempre foi uma instituição social, isto é, uma ação social, uma prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela. A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da idéia de autonomia do saber diante da religião e do Estado, portanto na idéia de um conhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão.
Por isso mesmo, a universidade européia tornou-se inseparável das idéias de formação, reflexão, criação e crítica. Com as lutas sociais e políticas dos últimos séculos, com a conquista da educação e da cultura como direitos, a universidade tornou-se também uma instituição social inseparável da idéia de democracia e de democratização do saber: seja para realizar essa idéia, seja para opor-se a ela, a instituição universitária não pôde furtar-se à referência à democracia como idéia reguladora, nem pôde furtar-se a responder, afirmativa ou negativamente, ao ideal socialista.
Que significa, então, passar da condição de instituição social à de organização social?
Uma organização difere de uma instituição por definir-se por uma prática social, qual seja, a de sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios particulares para obtenção de um objetivo particular. Não está referida a ações articuladas às idéias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações definidas como estratégias balizadas pelas idéias de eficácia e sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. É regida pelas idéias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso, que para a instituição social universitária é crucial, é, para a oganização, um dado de fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que o onde existe.
A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (ou imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições, e sim vencer a competição com seus supostos iguais.
Como foi possível passar da idéia da universidade como instituição social à sua definição como organização prestadora de serviços?
A forma atual do capitalismo se caracteriza pela fragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da dispersão espacial e temporal do trabalho, da destruição dos referenciais que balizavam a identidade de classe e as formas da luta de classes. A sociedade aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações particulares definidas por estratégias particulares e programas particulares, competindo entre si.
Sociedade e Natureza são reabsorvidas uma na outra e uma pela outra porque ambas deixaram de ser um princípio interno de estruturação e diferenciação das ações naturais e humanas para se tornarem, abstratamente, "meio ambiente"; e "meio ambiente" instável, fluido, permeado por um espaço e um tempo virtuais que nos afastam de qualquer densidade material; "meio ambiente" perigoso, ameaçador e ameaçado, que deve ser gerido, programado, planejado e controlado por estratégias de intervenção tecnológica e jogos de poder.
Por isso mesmo, a permanência de uma organização depende muito pouco de sua capacidade interna e muito mais de sua capacidade de adaptar-se celeremente a mudanças rápidas da superfície do "meio ambiente". Donde o interesse pela idéia de flexibilidade, que indica a capacidade adaptativa a mudanças contínuas e inesperadas. A organização pertence à ordem biológica da plasticidade do comportamento adaptativo.
A passagem da universidade da condição de instituição à de organização insere-se nessa mudança geral da sociedade, sob os efeitos da nova forma capital, e ocorreu em duas fases sucessivas, também acompanhando as sucessivas mudanças do capital. Numa primeira fase, tornou-se universidade funcional; na segunda, universidade operacional. A universidade funcional estava voltada para a formação rápida de profissionais requisitados como mão-de-obra altamente qualificada para o mercado de trabalho.
Adaptando-se às exigências do mercado, a universidade alterou seus currículos, programas e atividades para garantir a inserção profissional dos estudantes no mercado de trabalho, separando cada vez mais docência e pesquisa. Enquanto a universidade clássica estava voltada para o conhecimento e a universidade funcional estava voltada diretamente para o mercado de trabalho, a nova universalidade operacional, por ser uma organização, está voltada para si mesma enquanto estrutura de gestão e de arbitragem de contratos.
Regida por contratos de gestão, avaliada por índices de produtividade, calculada para ser flexível, a universidade operacional está estruturada por estratégias e programas de eficácia organizacional e, portanto, pela particularidade e instabilidade dos meios e dos objetivos. Definida e estruturada por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual, está pulverizada em microrganizações que ocupam seus docentes e curvam seus estudantes a exigências exteriores ao trabalho intelectual.
A heteronomia da universidade autônoma é visível a olho nu: o aumento insano de horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade das publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e relatórios etc. virada para seu próprio umbigo, mas sem saber onde este se encontra, a universidade operacional opera e por isso mesmo não age. Não surpreende, então, que esse operar co-opere para sua contínua desmoralização pública e degradação interna.
Que se entende por docência e pesquisa, na universidade operacional, produtiva e flexível?
A docência é entendida como transmissão rápida de conhecimentos, consignados em manuais de fácil leitura para os estudantes, de preferência, ricos em ilustrações e com duplicatas em CD?s. O recrutamento de professores é feito sem levar em consideração se dominam ou não o campo de conhecimentos de sua disciplina e as relações entre ela e outras afins ? o professor é contratado ou por ser um pesquisador promissor que se dedica a algo muito especializado, ou porque, não tendo vocação para a pesquisa, aceita ser escorchado e arrochado por contratos de trabalho temporários e precários, ou melhor, "flexíveis". A docência é pensada como habilitação rápida para graduados, que precisam entrar rapidamente num mercado de trabalho do qual serão expulsos em poucos anos, pois tornam-se, em pouco tempo, jovens obsoletos e descartáveis; ou como correia de transmissão entre pesquisadores e treino para novos pesquisadores. Transmissão e adestramento. Desapareceu, portanto, a marca essencial da docência: formação.
A desvalorização da docência teria significado a valorização excessiva da pesquisa? Ora, o que é a pesquisa na universidade operacional?
À fragmentação econômica, social e política, imposta pela nova forma do capitalismo, corresponde uma ideologia autonomeada pós-moderna. Essa nomenclatura pretende marcar a ruptura com as idéias clássica e ilustradas, que fizeram a modernidade. Para essa ideologia, a razão, a verdade e a história são mitos totalitários; o espaço e o tempo são sucessão efêmera e volátil de imagens velozes e a compressão dos lugares e instantes na irrealidade virtual, que apaga todo contato com o espaço-tempo enquanto estrutura do mundo; a subjetividade não é a reflexão, mas a intimidade narcísica, e a objetividade não é o conhecimento do que é exterior e diverso do sujeito, e sim um conjunto de estratégias montadas sobre jogos de linguagem, que representam jogos de pensamento.

A história do saber aparece como troca periódica de jogos de linguagem e de pensamento, isto é, como invenção e abandono de "paradigmas", sem que o conhecimento jamais toque a própria realidade. O que pode ser a pesquisa numa universidade operacional sob a ideologia pós-moderna? O que há de ser a pesquisa quando razão, verdade, história são tidas por mitos, espaço e tempo se tornaram a superfície achatada de sucessão de imagens, pensamento e linguagem se tornaram jogos, constructos contigentes cujo valor é apenas estratégico?
Numa organização, uma "pesquisa" é uma estratégia de intervenção e de controle de meios ou instrumentos para a consecução de um objetivo delimitado. Em outras palavras, uma "pesquisa" é um "survey" de problemas, dificuldades e obstáculos para a realização do objetivo, e um cálculo de meios para soluções parciais e locais para problemas e obstáculos locais. Pesquisa, ali, não é conhecimento de alguma coisa, mas posse de instrumentos para intervir e controlar alguma coisa. Por isso mesmo, numa organização não há tempo para a reflexão, a crítica, o exame de conhecimentos constituídos, sua mudança ou sua superação. Numa organização, a atividade cognitiva não tem como nem por que realizar-se.
Em contrapartida, no jogo estratégico da competição do mercado, a organização se mantém e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades, obstáculos sempre novos, o que é feito pela fragmentação de antigos problemas em novíssimos micro-problemas, sobre os quais o controle parece ser cada vez maior. A fragmentação, condição de sobrevida da organização, torna-se real e propõe a especialização como estratégia principal e entende por "pesquisa" a delimitação estratégica de um campo de intervenção e controle. É evidente que a avaliação desse trabalho só pode ser feita em termos compreensíveis para uma organização, isto é, em termos de custo-benefício, pautada pela idéia de produtividade, que avalia em quanto tempo, com que custo e quanto foi produzido.
Em suma, se por pesquisa entendermos a investigação de algo que nos alcança na interrogação, que nos pede reflexão, crítica, enfrentamento com o instituído, descoberta, invenção e criação; se por pesquisa entendermos o trabalho do pensamento e da linguagem para pensar e dizer o que ainda não foi pensado nem dito; se por pesquisa entendermos uma visão compreensiva de totalidades e sínteses abertas que suscitam a interrogação e a busca; se por pesquisa entendermos uma ação civilizatória contra a barbárie social e política, então, é evidente que não há pesquisa na universidade operacional.
Essa universidade não forma e não cria pensamento, despoja a linguagem de sentido, densidade e mistério, destrói a curiosidade e a admiração que levam à descoberta do novo, anula toda pretensão de transformação histórica como ação consciente dos seres humanos em condições materialmente determinadas.
Marilena Chauí é professora no departamento de filosofia da USP, autora de "Cultura e Democracia" (Ed. Cortez) e "A Nervura do Real" (Companhia das Letras), entre outros. Ela escreve regularmente na seção "Brasil 500 d. C.", da Folha.
Folha de São Paulo, 09 de maio de 1999. Caderno Mais!





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CONFERÊNCIA DE ABERTURA DA ANPEd
POÇOS DE CALDAS 05/10/2003
A UNIVERSIDADE PÚBLICA SOB NOVA PERSPECTIVA
I.
A universidade é uma instituição social e como tal exprime de maneira determinada a estrutura e o modo de funcionamento da sociedade como um todo. Tanto é assim que vemos no interior da instituição universitária a presença de opiniões, atitudes e projetos conflitantes que exprimem divisões e contradições da sociedade como um todo. Essa relação interna ou expressiva entre universidade e sociedade é o que explica, aliás, o fato de que, desde seu surgimento, a universidade pública sempre foi uma instituição social, isto é, uma ação social, uma prática social fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e de suas atribuições, num princípio de diferenciação, que lhe confere autonomia perante outras instituições sociais, e estruturada por ordenamentos, regras, normas e valores de reconhecimento e legitimidade internos a ela. A legitimidade da universidade moderna fundou-se na conquista da idéia de autonomia do saber em face da religião e do Estado, portanto, na idéia de um reconhecimento guiado por sua própria lógica, por necessidades imanentes a ele, tanto do ponto de vista de sua invenção ou descoberta como de sua transmissão. Em outras palavras, sobretudo depois da Revolução Francesa, a universidade concebe-se a si mesma como uma instituição republicana e, portanto, pública e laica. A partir das revoluções sociais do Século XX e com as lutas sociais e políticas desencadeadas a partir delas a educação e a cultura passaram a ser concebidas como constitutivas da cidadania e, portanto, como direitos dos cidadãos, fazendo com que, além da vocação republicana, a universidade se tornasse também uma instituição social inseparável da idéia de democracia e de democratização do saber: seja para realizar essa idéia, seja para opor-se a ela, no decorrer de Século XX a instituição universitária não pôde furtar-se à referência à democracia como uma idéia reguladora. Por outro lado, a contradição entre o ideal democrático de igualdade e a realidade da divisão e luta de classes, obrigou a universidade a tomar posição diante do ideal socialista.
Vista como uma instituição social cujas mudanças acompanham as transformações sociais, econômicas e políticas, e como instituição social de cunho republicano e democrático, a relação entre universidade e Estado também não pode ser tomada como relação de exterioridade, pois o caráter republicano e democrático da universidade é determinado pela presença ou ausência da prática republicana e democrática do Estado. Em outras palavras, a universidade como instituição social diferenciada e autônoma só é possível em um Estado republicano e democrático.
Postos os termos desta maneira, poderia supor-se que, em última instância, a universidade, mais do que determinada pela estrutura da sociedade e do Estado, seria antes um reflexo deles. Não é, porém, o caso. É exatamente por ser uma instituição social diferenciada e definida por sua autonomia intelectual que a universidade pode relacionar-se como o todo da sociedade com o Estado de maneira conflituosa, dividindo-se internamente entre os que são favoráveis e os que são contrários maneira como a sociedade de classe e o Estado reforçam a divisão e a exclusão sociais, impedem a concretização republicana da instituição universitária e suas possibilidades democráticas.
Se essas observações tiverem alguma verdade, elas poderão nos ajudar a enfrentar com mais clareza a mudança sofrida por nossa universidade pública nos últimos anos, particularmente como a reforma do Estado realizada no último governo da república. De fato, essa reforma, ao definir os setores que compõem o Estado, designou um desses setores como Setor de Serviços não exclusivos do Estado e nele colocou a educação, a saúde e a cultura. Essa localização da educação no setor de serviços não exclusivos do Estado significou: 1) que a educação deixou de ser concebida como um direito e passou a ser considerada um serviço; 2) que a educação deixou de ser considerada um serviço público e passou a ser considerada um serviço que pode ser privado ou privatizado. Mas não é só isso. A reforma do Estado definiu a universidade como uma organização social e não como uma instituição social.
Uma organização difere de uma instituição por definir-se por uma prática social determinada por sua instrumentalidade: está referida ao conjunto de meios (administrativos) particulares para obtenção de um objetivo particular. Não está referida a ações articuladas às idéias de reconhecimento externo e interno, de legitimidade interna e externa, mas a operações definidas como estratégias balizadas pelas idéias de eficácia e de sucesso no emprego de determinados meios para alcançar o objetivo particular que a define. Por ser uma administração, é regida pelas idéias de gestão, planejamento, previsão, controle e êxito. Não lhe compete discutir ou questionar sua própria existência, sua função, seu lugar no interior da luta de classes, pois isso que para a instituição social universitária é crucial, é, para a organização, um dado de fato. Ela sabe (ou julga saber) por que, para que e onde existe.
A instituição social aspira à universalidade. A organização sabe que sua eficácia e seu sucesso dependem de sua particularidade. Isso significa que a instituição tem a sociedade como seu princípio e sua referência normativa e valorativa, enquanto a organização tem apenas a si mesma como referência, num processo de competição com outras que fixaram os mesmos objetivos particulares. Em outras palavras, a instituição se percebe inserida na divisão social e política e busca definir uma universalidade (ou imaginária ou desejável) que lhe permita responder às contradições impostas pela divisão. Ao contrário, a organização pretende gerir seu espaço e tempo particulares aceitando como dado bruto sua inserção num dos pólos da divisão social, e seu alvo não é responder às contradições e sim vencer a competição com seus supostos iguais.
Como foi possível passar da idéia da universidade como instituição social à sua definição como organização prestadora de serviços?
A forma atual do capitalismo se caracteriza pela fragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da dispersão espacial e temporal do trabalho, da destruição dos referenciais que balizavam a identidade de classe e as formas de luta de classes. A sociedade aparece como uma rede móvel, instável, efêmera de organizações particulares definidas por estratégias particulares e programas particulares, competindo entre si. Sociedade e Natureza são reabsorvidas uma na outra e uma pela outra porque ambas deixaram de ser um princípio interno de estruturação e diferenciação das ações naturais e humanas para se tornarem, abstratamente, "meio ambiente"; e "meio ambiente" instável, fluido, permeado por um espaço e um tempo virtuais que nos afastam de qualquer densidade material; "meio ambiente" perigoso, ameaçador e ameaçado, que deve ser gerido, programado, planejado e controlado por estratégias de intervenção tecnológica e jogos de poder. Por isso mesmo, a permanência de uma organização depende muito pouco de sua estrutura interna e muito mais de sua capacidade de adaptar-se celeremente a mudanças rápidas da superfície do "meio ambiente". Donde o interesse pela idéia de flexibilidade, que indica a capacidade adaptativa a mudanças contínuas e inesperadas.
A visão organizacional da universidade produziu aquilo que, segundo Freitag (Le naufrage de l?université), podemos denominar como universidade operacional. Regida por contratos de gestão, avaliada por índices de produtividade, calculada para ser flexível, a universidade operacional está estruturada por estratégias e programas de eficácia organizacional e, portanto, pela particularidade e instabilidade dos meios e dos objetivos. Definida e estruturada por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual, está pulverizada em micro organizações que ocupam seus docentes e curvam seus estudantes a exigências exteriores ao trabalho intelectual. A heteronomia da universidade autônoma é visível a olho nu: o aumento insano de horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade de publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e relatórios, etc.
Nela, a docência é entendida como transmissão rápida de conhecimentos, consignados em manuais de fácil leitura para os estudantes, de preferência, ricos em ilustrações e com duplicata em CDs. O recrutamento de professores é feito sem levar em consideração se dominam ou não o campo de conhecimentos de sua disciplina e as relações entre elas e outras afins ? o professor é contratado ou por ser um pesquisador promissor que se dedica a algo muito especializado, ou porque, não tendo vocação para pesquisa, aceita ser escorchado e arrochado por contratos de trabalho temporários e precários, ou melhor, "flexíveis". A docência é pensada como habilitação rápida para graduados, que precisam entrar rapidamente num mercado de trabalho do qual serão expulsos em poucos anos, pois tornam-se, em pouco tempo, jovens obsoletos e descartáveis; ou como correia de transmissão entre pesquisadores e treino para novos de pesquisadores. Transmissão e adestramento. Desapareceu, portanto, a marca essencial da docência: a formação.
Por sua vez, a pesquisa segue o padrão organizacional. Numa organização, uma "pesquisa" é uma estratégia de intervenção e de controle de meios ou instrumentos para a consecução de um objetivo delimitado. Em outras palavras, uma "pesquisa" é um "survey" de problemas, dificuldades e obstáculos para a realização de um objetivo, e um cálculo de meios para soluções parciais e locais para problemas e obstáculos locais. O survey recorta a realidade de maneira a focalizar apenas o aspecto sobre o qual está destinada a intervenção imediata e eficaz. Em outras palavras, o survey opera por fragmentação. Numa organização, portanto, pesquisa não é conhecimento de alguma coisa, mas posse de instrumentos para intervir e controlar alguma coisa. Por isso mesmo, numa organização não há tempo para reflexão, a crítica, o exame de conhecimentos instituídos, sua mudança ou sua superação. Numa organização, a atividade cognitiva não tem como nem por que realizar-se. Em contrapartida, no jogo estratégico da competição do mercado, a organização se mantém e se firma se for capaz de propor áreas de problemas, dificuldades, obstáculos sempre novos, o que é feito pela fragmentação de antigos problemas em novíssimos micro-problemas, sobre os quais o controle parece ser cada vez maior. A fragmentação, condição de sobrevida da organização, torna-se real e propõe a especialização como estratégia principal e entende por "pesquisa" a delimitação estratégica de um campo de intervenção e controle. É evidente que a avaliação desse trabalho só pode ser feita em termos compreensíveis para uma organização, isto é, em termos de custo-benefício, pautada a idéia de produtividade, que avalia em quanto tempo, com que custo e quanto foi produzido. Reduzida a uma organização, a universidade abandona a formação e a pesquisa para lançar-se na fragmentação competitiva. Mas o que ela faz? Porque está privatizada e a maior parte de suas pesquisas é determinada pelas exigências de mercado impostas pelos financiadores. Isso significa que a universidade pública produz um conhecimento destinado à apropriação privada. Essa apropriação, aliás, é inseparável da mudança profunda sofrida pelas ciências em sua relação com a prática.
De fato, até os anos 1940, a ciência era uma investigação teórica com aplicações práticas. Sabemos, porém, que as mudanças no modo de produção capitalista e na tecnologia transformaram duplamente a ciência: em primeiro lugar, ela deixou de ser a investigação de uma realidade externa ao investigador para tornar-se a construção da própria realidade do objeto científico por meio de experimentos e de constructos lógico-matemáticos ? como escreveu um filósofo, a ciência tornou-se manipulação de objetos construídos por ela mesma; em segundo lugar e, como conseqüência, ela se tornou uma força produtiva e, como tal inserida na lógica do modo de produção capitalista. A ciência deixou de ser teoria com aplicação prática e tornou-se um componente do próprio capital. Donde as novas formas de financiamento das pesquisas, a submissão delas às exigências do próprio capital e a transformação da universidade numa organização ou numa entidade operacional.
II.
Tomada sob a perspectiva operacional, a universidade pública corre o risco de passar por uma modernização que a faça contemporânea do Século XXI, sem que se toque nas causas que deram origem a esse modelo universitário. Desse desejo de modernização acrítico e pouco reflexivo, são sinais duas idéias apresentadas com insistência crescente pelos organismos internacionais que subsidiam e subvencionam universidades públicas. A primeira idéia é a de sociedade do conhecimento; a segunda, uma nova concepção da educação permanente ou continuada.
A transformação do capital e da ciência, a que nos referimos acima, articulada às mudanças tecnológicas referentes à circulação da informação produziram a idéia de sociedade do conhecimento, na qual o valor mais importante é o uso intensivo e competitivo dos conhecimentos.
Mas o que significa exatamente sociedade do conhecimento?
Ao se tornarem forças produtivas, o conhecimento e a informação passaram a compor o próprio capital, que passa a depender disso para sua acumulação e reprodução. Na medida em que, na forma atual do capitalismo, a hegemonia econômica pertence ao capital financeiro e não ao capital produtivo, a informação prevalece sobre o próprio conhecimento, uma vez que o capital financeiro opera com riquezas puramente virtuais cuja existência se reduz à própria informação. Entre outros efeitos, essa situação produz um efeito bastante preciso: o poder econômico se baseia na posse de informações e, portanto, essas se tornam secretas e constituem um campo de competição econômica e militar sem precedentes, ao mesmo tempo em que, necessariamente, bloqueiam poderes democráticos, os quais se baseiam no direito à informação, tanto o direito de obtê-las como o de produzi-las e fazê-las circular socialmente. Em outras palavras, a assim chamada sociedade do conhecimento, do ponto de vista da informação, é regida pela lógica do mercado (sobretudo o financeiro), de sorte que ela não é propícia nem favorável à ação política da sociedade civil e ao desenvolvimento efetivo de informações e conhecimentos necessários à vida social e cultural. Em resumo: a noção de sociedade do conhecimento, longe de indicar uma possibilidade de grande avanço e desenvolvimento autônomo das universidades enquanto instituições sociais comprometidas com a vida de suas sociedades e articuladas a poderes e direitos democráticos, indica o contrário, isto é, tanto a heteronomia universitária (enquanto a universidade produz conhecimentos destinados ao aumento de informações para o capital financeiro, submetendo-se às suas necessidades e à sua lógica) como a irrelevância da atividade universitária (quando suas pesquisas são autonomamente definidas ou quando procuram responder às demandas sociais e políticas de suas sociedades). O sinal da heteronomia é claro, por exemplo, na área das chamadas pesquisas básicas nas universidades latino-americanas, nas quais os objetos e métodos de pesquisa são determinados pelos vínculos com grandes centros de pesquisa dos países que possuem a hegemonia econômica e militar, pois tais vínculos são postos tanto como condição para o financiamento das pesquisas quanto como instrumentos de reconhecimento acadêmico internacional. O sinal da irrelevância, por outro lado, aparece claramente na deterioração e no desmantelamento das universidades públicas, consideradas cada vez mais um peso para o Estado (donde o avanço da privatização, da terceirização e da massificação) e um elemento perturbador da ordem econômica (donde a desmoralização crescente do trabalho universitário público).
Um outro aspecto que tem sido muito enfatizado pelos organismos internacionais que discutem o ensino superior é que a sociedade do conhecimento é inseparável da velocidade, isto é, a acentuada redução do tempo entre a aquisição de um conhecimento e sua aplicação tecnológica, a ponto dessa aplicação acabar determinando o conteúdo da própria investigação científica. Fala-se numa explosão do conhecimento, quantitativa e qualitativa, tanto no interior das disciplinas clássicas como com a criação de disciplinas novas e novas áreas de conhecimento. Segundo alguns autores, o conhecimento levou 1.750 anos para duplicar-se pela primeira vez, no início da era cristã; depois, passou a duplicar-se a cada 150 anos, depois a cada 50 anos e estima-se que, a partir de 2000, duplicará a cada 73 dias a afirma-se que a cada 4 anos duplica-se a quantidade de informação disponível no mundo.
No entanto, penso que é importante observar o seguinte. Penso que se poderia acrescentar aqui: as cifras sobre a quantidade e a velocidade dos conhecimentos, as cifras provenientes da publicação de artigos nos quais são apresentadas descobertas científicas, pode levar-nos ainda a uma outra reflexão, qual seja: a quantidade de descobertas implicou numa mudança na definição de uma ciência? Em outras palavras, a química, a matemática, a biologia e a história (para ficarmos com os exemplos mais freqüentes) foram redefinidas em termos de seus objetos, métodos, procedimentos, de tal maneira que poderíamos dizer, por exemplo, que, hoje, a mudança epistemológica na química equivaleria à mudança da alquimia para a química no século XVII? Ou que, hoje, a mudança epistemológica na história equivaleria àquela que, no século XIX, rompeu com a tradição historiográfica de narrativa dos memorabilia, levou a separar natureza e cultura, a considerar a historicidade como o modo de ser do homem e a buscar uma solução para o tema clássico (que define a história desde Heródoto e Tucídides) da alternativa entre contingência e necessidade? Ou ainda: sabemos que a mudança epistemológica fundamental entre a ciência clássica e a contemporânea (século XX) encontra-se, de um lado, no fato de que a primeira julgava alcançar as coisas tais como são em si mesmas enquanto a segunda não titubeia em tornar seus objetos como constructos, e, de outro, no fato de que a ciência clássica julgava operar com as idéias de ordem e conexão causais necessárias enquanto a ciência contemporânea tende abandonar a idéia de leis causais e a elaborar noções como as de probabilidade, regularidade, freqüência, simetria, etc. Ao falar em explosão do conhecimento e em explosão epistemológica, podemos dizer que a sociedade do conhecimento introduziu mudanças epistemológicas de tal monta que transformou as ciências? Houve mudança na estrutura das ciências nos últimos 30/40 anos?
Essas perguntas são suscitadas por dois motivos principais: 1) o fato, por exemplo, de que a química descubra novos elementos ou que a matemática desenvolva novos teoremas poderia ser considerado simplesmente como aumento quantitativo dos conhecimentos, cujos fundamentos não mudaram nos últimos 30/40 anos, aumento quantitativo decorrente tanto de novas tecnologias usadas nas pesquisas quanto do aumento do número de pesquisadores no mundo inteiro; 2) a quantidade de publicações precisa ser tomada cum grano salis, pois sabemos que essa quantidade pode exprimir pouca qualidade e pouca inovação porque: a) os chamados processos de avaliação da produção acadêmica, dos quais dependem a conservação do emprego, a ascensão na carreira e a obtenção de financiamento de pesquisas, são baseados na quantidade de publicação de artigos e do compadecimento a congressos e simpósios; b) a quantidade de "pontos" obtidos por um pesquisador também depende de que consiga publicar seus artigos nos periódicos científicos definidos hierarquicamente pelo ranking; c) os grandes centros de pesquisa só conseguem financiamentos públicos e privados se continuamente "provarem" que estão alcançando novos conhecimentos, uma vez que a avaliação deixou cada vez mais de ser feita pelos pares e passou a ser determinada pelo critério da eficácia e da competitividade (outro sinal de nossa heteronomia). Essas perguntas também se referem a um problema de fundo, qual seja, a mudança imposta ao tempo do trabalho intelectual e científico.
Sabemos que uma das características mais marcantes da cultura contemporânea é o que David Harvey denominou como compressão espaço-temporal.
De fato, examinando a condição pós-moderna, David Harvey (A condição pós-moderna, São Paulo, Loyola, 1992) analisa os efeitos da acumulação flexível do capital, isto é, a fragmentação e dispersão da produção econômica, a hegemonia do capital financeiro, a rotatividade extrema da mão-de-obra, a obsolescência vertiginosa das qualificações para o trabalho em decorrência do surgimento incessante de novas tecnologias, o desemprego estrutural decorrente da automação e da alta rotatividade da mão-de-obra, a exclusão social, econômica e política. Esses efeitos econômicos e sociais da nova forma do capital são inseparáveis de uma transformação sem precedentes na experiência do espaço e do tempo. Essa transformação é designada por Harvey com a expressão compressão espaço-temporal, isto é, o fato de que a fragmentação e a globalização da produção econômica engendram dois fenômenos contrários e simultâneos: de um lado, a fragmentação e dispersão espacial e temporal e, de outro, sob os efeitos das tecnologias da informação, a compressão do espaço ? tudo se passa aqui, sem distâncias, diferenças nem fronteiras ? e a compressão do tempo ? tudo se passa agora, sem passado e sem futuro.
Podemos acrescentar à colocação de Harvey que falar do presente como muitos hoje falam, como sendo a "era da incerteza" indica menos uma compressão filosófico-científica da realidade natural e cultural e mais a aceitação da destruição econômico-social de todos os referenciais de espaço e de tempo cujo sentido se encontrava não só na percepção cotidiana, mas também nos trabalhos da geografia, da história, da antropologia e das artes. Em vez de incerteza, mais vale falar em insegurança. Ora, sabemos que a insegurança não gera conhecimento e ação inovadora e sim medo e paralisia, submissão ao instituído, recusa da crítica, conservadorismo e autoritarismo.
Na verdade, fragmentação e dispersão do espaço e do tempo condicionam sua reunificação sob um espaço diferenciado e um tempo efêmero, ou sob um espaço que se reduz a uma superfície plana de imagens e sob um tempo que perdeu a profundidade e se reduz ao movimento de imagens velozes e fugazes.
No caso da produção artística e intelectual (Humanidades), a compressão do espaço e do tempo transformou o mercado da moda (isto é, do descartável, do efêmero determinado pelo mercado) em paradigma: as obras de arte e de pensamento duram um "saison" e, descartados, desaparecem sem deixar vestígio. Para participar desse mercado efêmero, a literatura, por exemplo, abandona o romance pelo conto, os intelectuais abandonam o livro pelo "paper", o cinema é vencido pelo vídeo-clip ou pelas grandes montagens com "efeitos especiais". Para a ideologia pós-moderna, a razão, a verdade e a história são mitos totalitários; o espaço e o tempo são sucessão efêmera e volátil das imagens velozes e a compressão dos lugares e instantes na irrealidade virtual, que apaga todo contato com o espaço-temporal enquanto estrutura do mundo; a subjetividade não é a reflexão, mas a intimidade narcísica, e a objetividade não é o conhecimento do que é exterior e diverso do sujeito, e sim um conjunto de estratégias montadas sobre jogos de linguagem, que representam jogos de pensamento. A história do saber aparece como troca periódica de jogos de linguagem e de pensamento, isto é, como invenção e abandono de "paradigmas", sem que o conhecimento jamais toque a própria realidade.
A compressão espaço-temporal produz efeitos também nas universidades: diminuição do tempo de graduação e pós-graduação, do tempo para realização de dissertações de mestrado e teses de doutorado. A velocidade faz com que, no plano da docência, as disciplinas abandonem, cada vez mais, a necessidade de transmitir aos estudantes suas próprias histórias, o conhecimento de seus clássicos, as questões que lhes deram nascimento e as transformações dessas questões. Em outras palavras: a absorção do espaço-tempo do capital financeiro e do mercado da moda conduzem ao abandono do núcleo fundamental do trabalho universitário, qual seja, a formação.
E isso torna-se também muito evidente quando se vê a discussão da segunda idéia, qual seja, a educação continuada ou permanente. Afirma-se que diante de um mundo globalizado e em transformação constante, a educação permanente ou continuada é uma estratégia pedagógica indispensável, pois somente com ela é possível a adaptação às mudanças incessantes se se quiser manter-se ativo no mercado de trabalho. A educação permanente ou continuada significa que a educação não se confunde com os anos escolares, isto é, a educação deixa de ser preparação para a vida e se torna educação durante toda a vida.
Precisamos ponderar crítica e reflexivamente sobre essa idéia. De fato, não se pode chamar isso de educação permanente. Como vimos acima, a nova forma do capital produz a obsolescência rápida da mão-de-obra e produz o desemprego estrutural. Por isso, passa-se a confundir educação e "reciclagem", exigida pelas condições do mercado de trabalho. Trata-se de aquisições de técnicas por meio de processos de adestramento e treinamento para saber empregá-las de acordo com as finalidades das empresas. Tanto é assim, que muitas empresas possuem escolas, centros de treinamento e reciclagem de seus empregados, ou fazem convênios com outras empresas destinadas exclusivamente a esse tipo de atividade. E essa atividade pressupõe algo básico, ou seja, a escolaridade propriamente dita. Muitas vezes também, a competição no mercado de trabalho exige que o candidato a emprego apresente um currículo com mais créditos do que outros ou que, no correr dos anos, acrescente créditos ao seu currículo, mas dificilmente poderíamos chamar a isso de educação permanente porque a educação significa um movimento de transformação interna daquele que passa de um suposto saber (ou ignorância) ao saber propriamente dito (ou à compreensão de si, dos outros, da realidade, da cultura acumulada e da cultura no seu presente ou se fazendo). A educação é inseparável da formação e é por isso que ela só pode ser permanente.
III.
Se quisermos tomar a universidade pública sob uma nova perspectiva, precisamos começar exigindo, antes de tudo, que o Estado não tome a educação pelo prisma do gasto público e sim como investimento social e político, o que só é possível se a educação for considerada um direito e não um privilégio nem um serviço. A relação democrática entre Estado e universidade pública depende do modo como consideramos o núcleo da república. Este núcleo é o fundo público ou a riqueza pública e a democratização do fundo público significa investi-lo não para assegurar a acumulação e a reprodução do capital ? que é o que faz o neoliberalismo com o chamado "Estado mínimo" ? e sim para assegurar a concreticidade dos direitos sociais, entre os quais se encontra a educação. É pela destinação do fundo público aos direitos sociais que se mede a democratização do Estado e, com ela, a democratização da universidade.
A reversão também depende de que levemos a sério a idéia de formação.
O que significa exatamente formação? Antes de mais nada, como a própria palavra indica, uma relação com o tempo: é introduzir alguém ao passado de sua cultura (no sentido antropológico do termo, isto é, como ordem simbólica ou de relação com o ausente), é despertar alguém para as questões que esse passado engendra para o presente, e é estimular a passagem do instituído ao instituinte. O que Merleau-Ponty diz sobre a obra de arte recolhe o passado imemorial contido na percepção, interroga a percepção presente e busca, com o símbolo, ultrapassar a situação dada oferecendo-lhe um sentido novo que não poderia vir à existência sem a obra. Da mesma maneira, a obra de pensamento só é fecunda quando pensa e diz o que sem ela não poderia ser pensado nem dito, e sobretudo quando, por seu próprio excesso, nos dá a pensar e a dizer, criando em seu próprio interior a posteridade que irá superá-la. Ao instituir o novo sobre o que estava sedimentado na cultura, a obra de arte e de pensamento reabre o tempo e forma o futuro. Podemos dizer que há formação quando há obra de pensamento e que há obra de pensamento quando o presente é apreendido como aquilo que exige de nós o trabalho da interrogação, da reflexão e da crítica, de tal maneira que nos tornamos capazes de elevar ao plano do conceito o que foi experimentado como questão, pergunta, problema, dificuldade.
Pensando numa mudança da universidade pública sob a perspectiva da formação e da democratização, creio que podemos assinalar alguns pontos que são a condição e a forma dessa mudança:
Colocar-se claramente contra a exclusão como forma da relação social definida pelo neoliberalismo e pela globalização: tomar a educação superior como um direito do cidadão (na qualidade de direito, ela deve ser universal); defesa da universidade pública tanto pela ampliação de sua capacidade de absorver sobretudo os membros das classes populares quanto pela firme recusa da privatização dos conhecimentos, isto é, impedir que um bem público tenha apropriação privada. Romper, portanto, com o modelo proposto pelo Banco Mundial e implantado no Brasil com a pretensão de resolver os problemas da educação superior por meio da privatização das universidades públicas ou pelos incentivos financeiros dados a grupos privados para criar estabelecimentos de ensino superior provocou não só o desprestígio das universidades públicas (porque boa parte dos recursos estatais foram dirigidos às empresas universitárias) como a queda do nível do ensino superior, cuja avaliação era feita por organismos ligados às próprias empresas.
Definir a autonomia universitária não só pelo critério dos chamados "contratos de gestão", mas pelo direito e pelo poder de definir suas normas de formação, docência e pesquisa. A autonomia é entendida em três sentidos principais: a) como autonomia institucional ou de políticas acadêmicas (autonomia em relação aos governos); b) como autonomia intelectual (autonomia em relação a credos religiosos, partidos políticos, ideologia estatal, imposições empresariais e financeiras); c) como autonomia financeira que lhe permita destinar os recursos segundo as necessidades regionais e locais da docência e da pesquisa. Em outras palavras, a autonomia deve ser pensada, como autodeterminação das políticas acadêmicas, dos projetos e metas das instituições universitárias e da autônoma condução administrativa, financeira e patrimonial. Essa autonomia só terá sentido: a)internamente houver o funcionamento transparente e público das instâncias de decisão; b) externamente as universidades realizarem, de modo público e em períodos regulares fixados, o diálogo e o debate com a sociedade civil organizada e com os agentes do Estado, tanto para oferecer a todos as informações sobre a vida universitária, como para receber críticas, sugestões e demandas vindas da sociedade e do Estado. Isso significa também que a autonomia é inseparável da elaboração da peça orçamentária anual, pois é esta que define prioridades acadêmicas de docência e pesquisa, metas teóricas e sociais, bem como as formas dos investimentos dos recursos. Para que haja automia com caráter público e democrático é preciso que haja discussão dos orçamentos por todos os membros da universidade, segundo o modelo do orçamento participativo. Finalmente, a autonomia universitária só será efetiva se as universidades recuperarem o poder e a iniciativa de definir suas próprias linhas de pesquisas e prioridades, em lugar de deixar-se determinar externamente pelas agências financiadoras.
Desfazer a confusão atual entre democratização da educação superior e massificação. Para isso, três medidas principais são necessárias:
Articular o ensino superior público e outros níveis de ensino público: sem uma reforma radical do ensino fundamental e do ensino médio públicos, a pretensão republicana e democrática da universidade será inócua. A universidade pública tem que se comprometer com a mudança no ensino fundamental e no ensino médio públicos. A baixa qualidade do ensino público nos graus fundamental e médio tem encaminhado os filhos das classes mais ricas para as escolas privadas e, com o preparo que ali recebem, são eles que irão freqüentar as universidades públicas, cujo nível e cuja qualidade são superiores aos das universidades privadas. Dessa maneira, a educação superior pública tem sido conivente com a enorme exclusão social e cultural dos filhos das classes populares que não têm condições de passar da escola pública de ensino médio para a universidade pública. Portanto, somente a reforma da escola pública de ensino fundamental e médio pode assegurar a qualidade e a democratização da universidade pública. A universidade pública deixará de ser um bolsão de exclusões sociais e culturais quando o acesso a ela estiver assegurado pela qualidade e pelo nível dos outros graus do ensino público;
reformar as grades curriculares atuais e o sistema de créditos, uma vez que ambos produzem a escolarização da universidade, com a multiplicação de horas-aula, retirando dos estudantes as condições para leitura e pesquisa, isto é, para sua verdadeira formação e reflexão, além de provocarem a fragmentação e dispersão dos cursos, e estimular a superficialidade. É precisão diminuir o tempo em horas-aula e o excesso de disciplinas semestrais. Dependendo da área acadêmica, as disciplinas podem ser ministradas em cursos anuais, permitindo que o estudante se aprofunde num determinado aspecto do conhecimento. É preciso também não somente assegurar espaço para a implantação de novas disciplinas exigidas por mudanças filosóficas, científicas e sociais, como também organizar os cursos de maneira a assegurar que os estudantes possam circular pela universidade e construir livremente um currículo de disciplinas optativas que se articulam às disciplinas obrigatórias da área central de seus estudos;
assegurar, simultaneamente, a universalidade dos conhecimentos (programas cujas disciplinas tenham nacionalmente o mesmo conteúdo no que se refere aos clássicos de cada uma delas) e a especificidade regional (programas cujas disciplinas reflitam os trabalhos dos docentes-pesquisadores sobre questões específicas de suas regiões). Assegurar que os estudantes conheçam as questões clássicas de sua área e, ao mesmo tempo, seus problemas contemporâneos e as pesquisas existentes no país e no mundo sobre os assuntos mais relevantes da área. Para isso são necessárias condições de trabalho: bibliotecas dignas do nome, laboratórios equipados, informatização, bolsas de estudo para estudantes de graduação, alojamentos estudantis, alimentação e atendimento à saúde. Convênios de intercâmbio de estudantes entre as várias universidades do país e com universidades estrangeiras.
4. Revalorizar a docência, que foi desprestigiada e negligenciada com a chamada "avaliação da produtividade", quantitativa. Essa revalorização implica em:
a. formar verdadeiramente professores, de um lado, assegurando que conheçam os clássicos de sua área e os principais problemas nelas discutidos ao longo de sua história e, de outro lado, levando em consideração o impacto das mudanças filosóficas, científicas e tecnológicas sobre sua disciplina e sobre a formação de seus docentes;
b. oferecer condições de trabalho compatíveis com a formação universitária, portanto, infra-estrutura de trabalho (bibliotecas e laboratórios realmente equipados);
c. realizar concursos públicos constantes para assegurar o atendimento qualitativamente bom de um número crescente de estudantes em novas salas de aulas (o processo de democratização aumentará o acesso às universidades);
d. garantir condições salariais dignas que permitam ao professor trabalhar em regime de tempo integral de dedicação à docência e à pesquisa, de maneira que ele tenha condições materiais de realizar permanentemente seu processo de formação e de atualização dos conhecimentos e das técnicas pedagógicas;
e. incentivar o intercâmbio com universidades do país e as estrangeiras, de maneira a permitir a completa formação do professor, bem como familiarizá-lo com as diferenças e especificidades regionais e nacionais bem como as grandes linhas do trabalho universitário internacional.
5. Revalorizar a pesquisa, estabelecendo não só as condições de sua autonomia e as condições materiais de sua realização, mas também recusando a diminuição do tempo para a realização dos mestrados e doutorados. Quanto aos pesquisadores com carreira universitária, é preciso criar novos procedimentos de avaliação que não sejam regidos pelas noções de produtividade e de eficácia e sim pelas de qualidade e de relevância social e cultural. Essa qualidade e essa relevância dependem do conhecimento, por parte dos pesquisadores, das mudanças filosóficas, científicas e tecnológicas e seus impactos sobre as pesquisa. Quanto à relevância social das pesquisas, cabe às universidades públicas e ao Estado fazer um levantamento das necessidades do seu país no plano do conhecimento e das técnicas e estimular trabalhos universitários nessa direção, assegurando, por meio de consulta às comunidades acadêmicas regionais, que haja diversificação dos campos de pesquisa segundo as capacidades regionais e as necessidades regionais. As parcerias com os movimentos sociais nacionais e regionais pode ser de grande valia para que a sociedade oriente os caminhos da instituição universitária, ao mesmo tempo que esta, por meio de cursos de extensão e por meio de serviços especializados, poderá oferecer elementos reflexivos e críticos para a ação e o desenvolvimento desses movimentos. Ou seja, a orientação de rumos das pesquisaas pode ser feita segundo a idéia de cidadania.
6. A valorização da pesquisa nas universidades públicas exige políticas públicas de financiamento por meio de fundos públicos destinados a esse fim por intermédio de agências nacionais de incentivo à pesquisa, mas que sigam duas orientações principais: a) projetos propostos pelas próprias universidades; b) projetos propostos por setores do Estado que fizeram levantamentos locais e regionais de demandas e necessidades de pesquisas determinadas e que serão subvencionadas pelas agências. A avaliação dos projetos, para concessão de financiamento, e a avaliação dos resultados deve ser feita por comissões democraticamente escolhidas pelas comunidades universitárias, em consonância com a definição de um programa nacional de pesquisas, definido pelo conjunto das universidades após o levantamento das necessidades, interesses e inovações das pesquisapara o país. Além dessa avaliação do conteúdo, deve haver uma avaliação pública dos objetivos e aplicações das pesquisas e uma avaliação pública, feita pelo Estado, sobre o uso dos fundos públicos. Em outras palavras, a universidade deve prestar publicamente contas de suas atividades de investigação à sociedade e ao Estado;
7. adotar uma perspectiva crítica muito clara tanto sobre a idéia de sociedade do conhecimento quanto sobre a de educação permanente, tidas como idéias novas e diretrizes para a mudança da universidade sob a perspectiva da modernização. É preciso tomar a universidade sob a perspectiva de sua autonomia e de sua expressão social e política, cuidando para não correr em busca da sempiterna idéia de modernização que, no Brasil, como se sabe, sempre significa submeter a sociedade em geral e a universidades públicas; em particular, a modelos, critérios e interesses que servem ao capital e não aos direitos dos cidadãos.
Marilena Chauí
Universidade de São Paulo






28.10.04
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Cara Júlia!

Aqui, em tempos de Fogaça gritando ao mundo a sua "capacidade de mudar, cumprir o que promete, respeitar o outro" para fazer-se de vítima e convencer um eleitorado que, de repente parece ter-se esquecido de como são os conservadores no poder. De outro lado uma capacidade nossa de responsabilizar os outros pelos desacertos e incapacidades de enfrentar a burguesia local e internacional nas disputas e enfrentamentos cotidianos, e a gente sabe que isto não é fácil, e atenta que não estou culpabilizando mas, apenas reconhecendo o nosso não saber, nos instiga ao pensar. Como tens visto este processo na distância que o espaço impõe e na proximidade que o virtual oportuniza?
Mudando de assunto e particularizante como andam tuas leituras? Podemos realizar um discussão síncrona no dis 25 de novembro ou 3 de dezembro, ou ambos, no horario da aula? Há possibilidade real? Que tipo de Programa consegues disponibilizar aí? Mensager, ou ICQ ou .... . POr favor nos avisa.
Na mudança seguinte de assunto, dizer da saudade de de ti como pessoa e como aluna, nas aulas, momento em és lembradas quando trazemos os teus textos, notícias e mesmo quando imaginamos o poderias nos dizer sobre uma ou outra questão. Eu particularmente tebho vivido momentos bastante duros e de muitas aprendizagens pessoais que me fazem descobir cotidianamente minha fragilidade e força e ao mesmo tempo o quanto "não educamos" as e nas escolhas de outros e outras. Sustentar minhas posições não tem sido um aprendizado fácil, e não falo do acadêmico, do teórico e do ético. São minhas emoções que se debatem nas reloções que .estabeleço, nas perdas, nas faltas e nas dobras deste fazer-me que me desmonto e remonto a cada momento. Ficar quieta, na espera, sem fazer nada é a aprendizagem que venho tentando. Neste meu processo tu é quem tenssido penalizada, pois ao não fazer para e por uns acabo por incluir a ti, que também estas longe, numa distancia que tenho vivido como perda que não estava conseguindo te escrever.
Estava a lamber minhas feridas e não conseguia compartilhar com ninguem quase nada que me soasse sofrimento. Estou fazendo aqui o desencantamento para re-encantar a vida, voltar a trocar e estar contigo, no compartilhar com o grupo, uma vez que escolhi este meio para estarmos juntas e com o grupo da disciplina.
Pedir desculpas seria culpar-me e não é desta natureza a questão que trago. Por isto, aqui estou de novo! POdes contar comigo.
Beijos e muito carinho para que possas te sentir um pouco aqui conosco, mesmo que apenas pelas marcas que construímos em nós, com nossas memórias e no que nossas palavras conseguem trazer como nossa cosntução. Um abraço a quem nos roubando tua presença e pode fazer / compartilhar conosco tua feliciadade.